Início EDITORIA Entrevistas “Nunca vi o Presidente da República numa feira do livro”, Cíntia Gonçalves

“Nunca vi o Presidente da República numa feira do livro”, Cíntia Gonçalves

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Cíntia Gonçalves é uma escritora, ensaísta e coordenadora editorial angolana. Fotografia de Domingos Barrete.

Considerada “activista da liberdade”, Cíntia Gonçalves é uma escritora angolana que criou a sua própria editora chamada “Asas de Papel”, com a qual participou do Festival do Livro na Rua – FLIR, um evento organizado pelo Centro cultural Brasil Angola, tutelado pela Embaixada do Brasil em Angola e o Estado de Belo Horizonte, no Brasil. Os eventos foram presenciais e online de 5 à 10 do corrente mês, na Rua dos Mercadores, na Baixa de Luanda.

Apesar de entender ser ainda muito nova, a escritora e assessora de imprensa afirma que o livro para os angolanos ainda é um produto estranho e acredita que uma maratona de cerveja estaria mais lotada de público.

A escritora apresentou os desafios que os autores e editoras estão a enfrentar nos últimos anos e o trabalho que o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente pode desenvolver para dar cobertura e promoção às letras.

Quando é que foi fundada a sua Editora?
A Asas de Papel foi fundada em 2017. O nosso primeiro lançamento foi o livro Ausentes, da escritora Stella Constantina e desde então publicamos o livro “Ritmos da Luta”, de Fernando Carlos, uma obra dramática sobre N’gola Ritmos e a influência do Semba na luta pela independência de Angola. Colocamos ainda no mercado “O último dos Sonhadores”, de Sérgio Fernandes que terá uma segunda edição porque está esgotado. Neste momento, temos o “Bar Sekele”, um livro de poemas em homenagem ao poeta António Gonçalves, assinado por Lupito Feijó e Kagibangala. O romance de Sérgio Fernandes “O Advento da Loucura” também está a caminho.

Quais são as dificuldades que as editora encontram para o trabalho editorial?
A maior dificuldade na produção de um livro em Angola tem que ver com a impressão, que é exactamente o processo mais caro. Ainda é muito difícil encontrar uma gráfica que ofereça um produto bem trabalhado e finalizado.
No cenário actual ainda temos dificuldades em encontrar papel de qualidade e, quando encontramos, surge o problema da mão de obra, pois as algumas gráficas imprimem mal as obras ou apresentam uma colagem de péssima qualidade.
Para ter noção, os primeiros livros que a Asas de Papel publicou foram impressos em Portugal, as condições financeiras do país eram outras. Hoje temos que imprimir com as gráficas locais e para termos a qualidade a que os nossos leitores e escritores estão acostumados somos obrigados a recorrer à empresas que cobram preços elevadíssimos, mas que conseguem nos dar um produto próximo ao que obtemos no exterior.
Estamos a persistir, procurar sempre a melhor oferta para os nossos leitores, clientes para conseguirmos levar livros com qualidade próxima aos que são produzidos totalmente em Angola.

Estamos a persistir, procurar sempre a melhor oferta para os nossos leitores, clientes para conseguirmos levar livros com qualidade próxima aos que são produzidos totalmente em Angola.

Os desafios das divisas?
Quando digo que deixamos as gráficas do exterior para aderir as locais é exactamente pelas dificuldades na aquisição de divisa, do câmbio e dos custos de transporte. Mas se pudéssemos, faríamos a impressão de todos os livros no exterior.
Eu disse que os nossos primeiros trabalhos foram impressos em Portugal, mas hoje o nosso país enfrenta uma situação económica diferente de 2017, principalmente os problemas de divisa e transportes que foram ainda mais afectados pela pandemia da Covid-19, não restando outra alternativa senão imprimir cá.

Mas, estamos a persistir, procurando sempre a melhor forma para produzirmos livros com qualidade.

Quais são as dificuldades que encontram em relação ao preço dos livros?

Apesar de começar como editora em 2017, eu sou escritora há muito mais tempo. Hoje estamos aqui nessa feira [Festival do Livro na Rua – FLIR] e há um livro dos 11 Clássico em Angola, das colecções Novembro da Literatura Angolana que no no seu lançamento custavam 500 kwanzas, e os infantis cheguei a comprá-los para a minha irmã mais nova no valor de 200 kwanzas.
Aqui nesta feira os mesmo livros estão a sair a 3, 4 e 5 mil kwanzas. O mesmo está a acontecer com os livros que publicamos em 2017,a nossa primeira obra, que é uma novela de 150 páginas, foi vendida a 3 mil kwanzas, hoje está a custar o dobro exactamente por causa de todas estas dificuldades.
Entre o pão e o livro, a prioridade é o pão. Isso não é culpa das pessoas, pois elas não estão aqui porque não querem, às vezes é porque não podem.

Entre o pão e o livro, a prioridade é o pão. Isso não é culpa das pessoas, pois elas não estão aqui porque não querem, às vezes é porque não podem.

Como está a ser a adesão do público?
Nós estamos nessa feira que se esperava o maior número de visita, maior número de compradores, maior cobertura a nível de imprensa, mas não temos nada disso desde o começo da manhã. Acho que vendi cerca de 10 livros e estou feliz, mas há quem está aqui desde manhã e não vendeu nenhum livro.
Então, o livro para nós ainda é um produto estranho. Estava a gozar com um dos companheiros aqui da exposição e ele disse que se fosse uma feira de cerveja isso estava lotado o dia todo e não teríamos espaços para ninguém. Infelizmente não se dá o devido incentivo aos que escrevem ou aos que editam.
Não se dá importância ao livro e à literatura. São as discussões que temos tido todos os dias em que enfrentamos os desafios que, de algum modo, se tornaram o combustível que nos ajuda a remar cada vez mais contra a maré porque sabemos que as pessoas que estão aqui também têm dificuldades.
Entre o pão e o livro, a prioridade é o pão. Isso não é culpa das pessoas, pois elas não estão aqui por não querer, mas porque não podem.
E nós só podemos trabalhar cada vez mais de modo que os livros cheguem a mais pessoas e lugares de Angola. Acho que nos últimos anos o jornalismo cultural tem dado grande espaço às letras.

Que avaliação faz ao jornalismo cultural em termos de apoios naquilo que são os negócios culturais?
Eu acho que nos últimos anos tem se dado maior espaço à literatura, pois temos agora reactivado o Jornal Cultura, das Edições Novembro, onde há escritores a assinar colunas e eu sou uma delas a assinar lá coluna “Letra de Mulher”, destinada à literatura produzida por mulheres. Temos o lá o Lopito Feijó e o Luís Kandjimbo que publica semanalmente no Jornal de Angola. O Adriano Mixinge é também um escritor que publica semanalmente no Jornal de Angola textos abrangente para artes visuais, literatura e sociedade. Então, acho que nos últimos anos o jornalismo cultural tem dado grande espaço às letras.
O jornal do País tem uma série de escritores da nova geração que vão publicando mensalmente crónicas e artigos e isso provoca outro movimento na Literatura Angolana, temos o exemplo dos escritores da década de 80 que movimentaram o cenário literário da época exactamente com os espaços nos jornais, revistas como a Lavra & Oficina da União dos Escritores Angolanos que hoje voltou em formato digital. Nos últimos anos, vão surgindo pequenas gotas no oceano, e vão gerando resultados a favor da literatura angolana.

E como estamos com a valorização das letras na Academia?
Penso que o movimento é bom, embora não seja o que se deseja ainda, mas é bom, é crescente e temos cada vez mais crítica dentro da Universidade. Isto está a gerar pessoas que pensam e trazem questionamentos necessários. Desta forma, vão surgindo jovens que têm vontade de aprender e estão na academia não apenas para as profissões que geram retorno financeiro, mas também para aquelas que nos dão o gozo e conhecimento.
Por isso, é importante apesar de uma fraca representação das mulheres no que diz respeito a produção de ensaios e outros textos científicos, dá para se sentir um movimento diferente. Temos verificado jovens a apelarem pela crítica literária e das artes, outros vão criando casas e centros culturais, residências artísticas que engrandecem a cena cultural angolana.
Assistimos os primeiros licenciados do curso de Artes Visuais do Instituto Superior de Artes – ISART que participam de exposição importantes como Fukin’ Globo III, das maiores amostras colectiva do país. O evento que aconteceu a pouco tempo estava abarrotado de novas vozes. Então, a Academia vai produzindo estes jovens que questionam e apelam o sentimento e a necessidade de produzir ciência e pensar a Cultura Angolana.

Eu acho o actual ministro da Cultura pessoa muito competente, muito capaz e, se lhe forem dadas as ferramentas necessárias para produzir e gerar mudanças na nossa cena cultural, ele consegue.

Finalmente queria saber a sua opinião em relação o actual Governo Cultural de Angola?
Eu acho o actual ministro da Cultura pessoa muito competente, muito capaz e, se lhe forem dadas as ferramentas necessárias para produzir e gerar mudanças na nossa cena cultural, ele consegue. Pois, já assumiu instituições como o Memorial Dr. António Agostinho Neto, que na altura teve prémios literários, teve concertos do mais alto escalão, a nível de produção e com acesso gratuito, teve eventos com escritores nacionais e internacionais. Festivais e conferências de literatura sobre vida e obra de Agostinho Neto e tudo isso com um orçamento reduzido. Hoje, como ministro da Cultura e com um orçamento maior penso que poderá desempenhar maiores tarefas, afinal já provou que consegue gerar resultados mesmo com pouco.

São essas coisas que são mais importantes que deveriam ser pensadas antes daquelas que também são consideradas importantes e ainda não são tão necessárias

Já viu o Presidente da República numa feira do livro?
Nunca vi o Presidente da República numa feira do livro. Sou nova e desde que existo, Angola teve apenas dois Presidentes, mas o actual é o único Presidente que eu vi a defender a necessidade de uma biblioteca para a própria Presidência. Risos!
Acho que é importante que a própria Presidência tenha uma biblioteca, mas antes de se pensar numa biblioteca para a Presidência da República, é importante pensar numa para o povo.
Nós temos a nossa Biblioteca Nacional e quando a visitamos nos deparamos com problemas de arquivo, documentação, catalogação e outros desafios básicos como a oferta de livros. Em tempos procurava o livro de uma escritora angolana da década de 80 chamada Ana de Santana e nenhuma instituição pública tinha o livro da senhora! Parecia que a década de 80 fosse há 100 ou 200 anos atrás, quando é aqui ao virar da esquina, muito próximo!
É um livro que já deveria ser reeditado, pois faz parte da própria história da Literatura Angolana. São essas coisas que são mais importantes e que deveriam ser pensadas antes daquelas que também são consideradas importantes, embora não sejam ainda tão necessárias.

Aceitaria o desafio de fazer a reedição desta e de outras obras?
Com muito gosto. Como eu disse, tenho uma coluna e um projecto focados na produção literária no feminino e se eu pudesse reeditar obras de mulheres que tenho interesse como Alda Lara, Ermelinda Xavier, Lisa Castel, Ana de Santana, essas mulheres que fazem parte da génese da literatura Angolana e não são tidas e nem achadas eu me sentiria muito privilegiada, vaidosa e muito orgulhosa.

Qual tem sido o impasse?
O impasse principal para isso é o financiamento. Não dá para cumprir esse desiderato sem o apoio dos mecenas. Quase ninguém investe no livro porque o livro não tem retorno financeiro.
Outro impasse é que esses livros não chegam aos jovens. Ermelinda Xavier por exemplo, foi viver em Portugal e deixou de produzir e sua última obra foi publicada após a sua morte em Portugal. É um livro de poemas que até aqui não chegou no nosso país. É uma contemporânea de Agostinho Neto, Alda Lara e seus símiles, mas os jovens desconhecem porque não se fala dela em Angola. Ela faz parte do Plano Nacional de Leitura em Portugal, uma angolana que não conhecemos isso é muito estranho e revoltante. São essas coisas que parecem insignificantes, mas dizem muito sobre quem somos, de onde viemos e para onde nós vamos.

Temos alguma novidade em relação as editoras digitais em Angola?
Eu não sei se para Angola já existe este desafio. Nós nem chegamos à fase de um consumo massivo do livro físico devido o preço, quanto mais os livros digitais. Temos problemas com acesso e distribuição das redes de Internet e não sei se existe esta competição entre as editoras físicas e as digitais, o que acontece é que as editoras vão aderindo cada vez mais a estas plataformas que facilitam na divulgação dos trabalhos de modo, a atrair mais leitores. Por exemplo, estando na Europa podemos comprar um livro angolano com um clique.
O tempo já foi e nós temos de alcançar as coisa que os outros já fizeram há décadas,então não temos tempo para discutir desafios porque estamos a tentar resolver as falhas e emendar os buracos para podermos constituir uma estrutura compacta.
Assim, o que fazemos é criar maneira de o digital e físico coabitarem. Estamos a tentar alavancar tanto um como o outro, fazendo lançamentos de livros digitais, criando websites, vendendo livros através de sites nacionais e internacionais afinal, dinamizar a estrutura literária é muito mais importante do que discutir qual dos formatos deveria prevalecer.

Perfil de Cíntia Gonçalves
Cíntia Gonçalves é escritora, ensaísta, autora de um livro chamada “As Simetrias de Mulher”, vencedora do prémio de literatura promovido pelo Ministério da Juventude e Desportos, um bouquet de cor de rosa para ti, um prémio de poesia promovido pelo Memorial Dr. António Agostinho Neto. É formada em Comunicação Social, assessora de imprensa e comunicação e assina uma coluna no Jornal Cultura, onde vai publicando ensaios sobre a produção literária no feminino de 15 em 15 dias.

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