A arte pode nascer de muitas formas. Pode surgir da observação do mundo, de uma experiência pessoal, de uma inquietação política ou simplesmente da necessidade de criar. Para a artista Ana Cleia Feitosa de Araújo, que artisticamente assina Ana Araújo, a criação parece estar profundamente relacionada à ancestralidade, ao mundo espiritual e à cultura afro-brasileira.
Nascida em São Luís, no Maranhão, em 25 de abril de 1964, e atualmente residente em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, Ana Araújo construiu uma trajetória marcada pela multiplicidade. É artista plástica, artesã, percussionista, terapeuta holística e agente cultural.
Atua em grupos de maracatu e no bloco carnavalesco Boêmios da Alegria, de Nova Iguaçu, além de desenvolver o projeto Magia da Arte com Ana Araújo, que articula poesia, música, audiovisual e projeção de imagens.
Entre suas iniciativas está também o projeto Ojuaraana, criado com o propósito de abrir espaços para exposições de arte de matrizes africanas em terreiros e realizar entrevistas com seus desenvolvedores — babalorixás e ialorixás —, contribuindo para a valorização e divulgação da cultura afro-brasileira.
A presença da cultura africana em seu trabalho não é, portanto, apenas temática. Ela se relaciona, segundo a própria artista, com uma experiência de ancestralidade e espiritualidade.
Essa dimensão ganha especial significado quando pensamos na tradição iorubá. Os iorubás constituem um dos povos de maior importância histórica e cultural da África Ocidental. Sua cosmologia, transmitida também pela tradição oral, reúne narrativas sobre os orixás, entidades relacionadas às forças da natureza e a diferentes dimensões da existência humana. Com a diáspora africana provocada pelo tráfico transatlântico de escravizados, elementos dessa cultura atravessaram o oceano e foram recriados no Brasil, tornando-se parte fundamental de diversas manifestações da cultura afro-brasileira.
É nesse encontro entre arte, ancestralidade, espiritualidade e cultura que se situa o trabalho de Ana Araújo.
Carlos Carvalho Cavalheiro (CCC) — Ana, quando você se descobriu artista?
Ana Araújo (AA) — Oficialmente, aos 51 anos, em 2018, quando assumi e resolvi viver da arte, encarando os desafios e abrindo um espaço só meu.
Foi um momento em que tomei a decisão de assumir a arte como caminho de vida e também como forma de sustento, enfrentando os desafios que isso representava.
CCC — Você se considera uma artista multimídia? Explique um pouco como é esse processo de participar de diversas áreas da arte. Você vê isso como uma necessidade?
AA — Fui denominada por amigos como multiartista, por ser inquieta e fascinada por qualquer tipo de movimento artístico. Isso vem da minha ancestralidade desse mundo e do mundo espiritual.
Embora não tenha religião, sou simpatizante da cultura afrodescendente e também do Espiritismo segundo Allan Kardec, que frequentei estudando. Levo isso para tudo o que faço, aliando às práticas holísticas, que realmente me completam.
Acho que essa multiplicidade faz parte de mim. Não consigo ficar limitada a uma única linguagem. A pintura, o artesanato, a percussão, a poesia, o audiovisual e as práticas culturais acabam dialogando entre si.
CC — Você desenvolve também o projeto “Ojuaraana”. Pode explicar aos nossos leitores o que é esse projeto e como ele surgiu?
AA — O projeto Ojuaraana surgiu devido a um chamado que me foi dado por meio de manifestações espirituais. Também fui inspirada a escrever, ou seja, a retomar a escrita, coisa que eu havia deixado por não achar que era para mim esse processo. Faltou incentivo e eu achava uma pretensão, diante de tantas pessoas mais capacitadas. Esse projeto foi justamente o que me deu coragem para enfrentar os preconceitos contra o meu trabalho, tanto por ser inovadora quanto pela discriminação e perseguição às matrizes africanas.
O Ojuaraana busca criar espaços para exposições de arte de matrizes africanas em terreiros e realizar entrevistas com babalorixás e ialorixás, valorizando as pessoas que desenvolvem e preservam essas manifestações culturais. É uma maneira de dar visibilidade a uma cultura que muitas vezes é alvo de preconceito, quando deveria ser reconhecida como parte fundamental da cultura brasileira.
CCC — De onde vem essa inspiração ou esse desejo de falar das coisas da África, particularmente das matrizes africanas presentes na cultura brasileira?
AA — Essa manifestação veio justamente pelas forças que me foram enviadas pela força sobrenatural e pelo desejo de confrontar o bullying que sofri na família, entre vizinhos e também com colegas do meio artístico.
Fui excluída naquela época em que comecei a enfrentar tudo e todos, mesmo sem ter base até para prover meu próprio sustento.
Foi nesse enfrentamento que encontrei forças para continuar. A cultura afrodescendente passou a ocupar um espaço cada vez mais importante no meu trabalho, não apenas como inspiração artística, mas como uma forma de afirmação.
CCC — Você disse que a temática de parte de seu trabalho está relacionada à mitologia iorubá. Essa mesma mitologia alimenta ou alicerça uma variedade de crenças religiosas no Brasil. O seu trabalho possui esse caráter de religação com o sagrado?
AA — Sim. Com o passar do tempo, isso só me foi comprovado através da espiritualidade e das trocas de informações que adquiri com colegas terapeutas holísticos, que me ajudaram a permanecer.
Mesmo sem sair do meu próprio segmento, eu mesma faço os meus rituais.
Essa relação com o sagrado acaba estando presente naquilo que faço. A arte, para mim, não está separada dessas experiências. Ela é também uma forma de expressão dessas forças, dessas percepções e dessa ancestralidade.
Arte como afirmação da ancestralidade
A trajetória de Ana Araújo revela uma característica recorrente em muitas manifestações da arte afro-brasileira: a impossibilidade de separar completamente criação artística, memória, ancestralidade e experiência espiritual.
Em seu caso, essa relação aparece em diferentes linguagens. Está nas artes plásticas, no artesanato, na percussão do maracatu, na poesia, no audiovisual e, especialmente, na construção de espaços de visibilidade para artistas e representantes das religiões de matrizes africanas.
O Ojuaraana, nesse sentido, ultrapassa a ideia de um projeto artístico. Ao levar exposições para terreiros e registrar, por meio de entrevistas, as experiências de babalorixás e ialorixás, Ana Araújo também atua como agente de preservação e circulação de saberes.
E talvez seja justamente aí que sua trajetória encontre uma de suas dimensões mais fortes: fazer da arte um lugar de afirmação daquilo que tantas vezes foi silenciado, discriminado ou colocado à margem.
Para um portal angolano como o Marimba Selutu, essa experiência brasileira também pode ser lida dentro de uma perspectiva mais ampla: a cultura africana não permaneceu confinada ao continente após a diáspora. Ela atravessou o Atlântico, sobreviveu à violência da escravização, foi recriada em novas terras e continua produzindo arte, memória, identidade e formas de compreender o mundo.
No trabalho de Ana Araújo, essa ancestralidade continua encontrando novas formas de expressão.


































