Kueno Ayonda: a voz que Angola abraçou e nos deixou em Fevereiro de 2020 – Ribeiro Tenguna

0
3
- Publicidade -

Há artistas que entram na nossa vida sem pedir licença. Ouvimos uma música na rádio, cantarolamos o refrão no candongueiro, canta sem perceber, e quando damos por nós aquela voz já mora connosco.

Com Kueno Ayonda foi assim para muita gente. Tinha uma voz doce, emotiva, e um jeito de cantar o amor como quem está a contar uma história de encantar os corações. Canções como “Tu Vives em Mim” marcaram a nossa geração e transformaram um jovem de Luanda numa referência afectiva da música angolana.

O muitos ex-fãs devem ter esquecido é que ele faleceu num mês como este e, desde a morte dele, a 19 de Fevereiro de 2020, até hoje, 23 de Fevereiro de 2026, passaram-se 6 anos e 4 dias.

Kueno Merkides Vieira Ayonda nasceu a 29 de Maio de 1986, em Luanda. Pelo relato, teve uma infância tranquila, e desde cedo se inclinou para a arte, com a música a puxar mais forte. Mas o que impressiona na sua trajectória não é só o talento: é a insistência. Kueno não apareceu “do nada”. Antes do reconhecimento, houve tentativas, derrotas e recomeços, daqueles que testam o carácter de qualquer pessoa.

Ainda muito novo, em 2002, entrou no concurso “Canta Canta”, da Rádio Luanda, e não venceu. No ano seguinte, tentou novamente noutro formato popular, “Estrelas ao Palco”, exibido pela TPA, e voltou a ficar pelo caminho. Em vez de desistir, voltou mais uma vez em 2004, na quinta edição do mesmo concurso. Ali, com a interpretação da música “Sei”, do grupo Africano, alcançou o terceiro lugar. Não era o topo, mas já era um bom sinal: havia ali qualquer coisa que merecia atenção.

A caminhada continuou com mais participações em festivais. Em 2005 e 2006, concorreu no “Festival da Canção de Luanda” e não ganhou. Foram anos de “quase”, de bater na trave, de sentir que o sonho estava perto mas ainda não era. Só que, por vezes, o tempo de um artista não é o tempo do público. E Kueno persistiu até o momento em que tudo encaixou.

Esse ponto de viragem, chegou em 2010, quando gravou “Tu Vives em Mim”. No início, a música não teve o consumo que viria a ter depois. Mas quando ele voltou a concorrer ao “Festival da Canção de Luanda” com essa mesma canção, aconteceu o que muitos músicos procuram a vida inteira: a obra encontrou o seu lugar. Kueno conquistou o primeiro lugar e ganhou um prémio em kumbu. Mais do que os dólares, veio a validação nacional: afinal, a voz estava ali, o público só precisava de a ouvir na hora certa.

A partir daí, as portas começaram a abrir. Em 2011, representou a província de Luanda num concurso de música angolana e ficou em terceiro lugar. Em 2012, “Tu Vives em Mim” passou a batar com força, entrando entre as mais tocadas nas rádios, e rendeu-lhe o prémio de Kizomba do Ano no Top Rádio Luanda. Já não era só “promessa”; era presença. A sua música tinha entrado na rotina dos mwangolés.

Em 2013, lançou o primeiro álbum, também associado ao sucesso de “Tu Vives em Mim”, e o trabalho foi bem recebido. Nesse período, Kueno passou a figurar entre os artistas mais queridos do país e recebeu o prémio de Artista Revelação. Em 2014, veio mais um reconhecimento, com o troféu de Balada do Ano. Aos poucos, consolidava-se como alguém que podia ter uma carreira longa, consistente e cada vez maior.

Em palco, Kueno viveu momentos importantes e circulou por vários espectáculos em Angola. Em 2016, lançou “Anjo do Amor”, que foi um grande sucesso e acabou por ser o último grande momento dessa fase luminosa. E aqui a história muda de tom, como se a mesma vida que parecia a subir por uma escada começasse, de repente, a descer por um elevador avariado.

Ainda em 2016, Kueno entrou no consumo de drogas. Fontes dizem que chegou a consumir até cocaína, com um nível de consumo alto e dispendioso, que começou a prejudir a sua estabilidade pessoal e profissional.

Kueno chegou a anunciar um segundo álbum, com previsão para Março de 2017. Falava de “renovar energias”, de estar a preparar o lançamento com cuidado. Mas o álbum nunca saiu. A dependência foi ocupando o espaço onde antes estava a disciplina artística. O nosso menino prodígio perdeu bens, ficou sem casa, carros e apoio familiar, e afastou-se dos palcos e dos holofotes.

Houve episódios de alerta grave, incluindo momentos em que ficou doente e quase morreu. Procurou ajuda médica, mas abandonou o tratamento, e também se envolveu em conflitos com pessoas que tentavam apoiar. Em 2018, ocorreu um incidente público descrito como o ponto mais baixo daquela fase, quando, sob efeito de estupefacientes, ele se expôs de forma chocante em público. É o tipo de cena que a internet transforma em “espectáculo”, mas que na verdade é um grito de socorro.

Depois desse episódio, Kueno decidiu procurar ajuda novamente e iniciou um processo de desintoxicação. E há algo comovente nisso: mesmo no fundo do poço, existiu a vontade de voltar a ser ele próprio, recuperar autoestima e retomar sonhos abandonados.

Em 2019, lançou “Love Last”, apontada como a sua última música. Depois disso, afastou-se completamente. Em Fevereiro de 2020, foi internado em estado grave no Hospital Américo Boavida, em Luanda, ficando internado 13 dias. A 19 de Fevereiro de 2020, Kueno Ayonda faleceu devido a uma patologia crónica. Tinha apenas 33 anos.

Quando alguém morre jovem, a nós ficamos com aquela sensação de livro interrompido. Não porque a pessoa seja perfeita, mas porque o futuro que imaginávamos para ela deixa de existir. No caso de Kueno, fica também a lembrança do que ele já tinha construído, e do que ainda poderia ter sido. A sua história, contada neste texto, é ao mesmo tempo um retrato do poder da persistência e um aviso doloroso sobre como certas quedas não são “fase”, são abismos.

Mas, no fim, é a música que segura a memória. Enquanto houver alguém a cantar “Tu Vives em Mim” com o coração apertado, Kueno continua a existir naquele lugar onde os artistas não morrem de verdade: na voz de quem os escuta, na saudade que vira melodia, e no amor que uma canção bem feita consegue guardar para sempre.

Rua Rainha Ginga, em Luanda, 23 de Fevereiro de 2026.

Deixe o seu comentário
Artigo anteriorAcadémico lança “A Liberdade do Kongo e de África” em Luanda