
Pesquisa desenvolvida na UFSCar e apresentada na 17.ª ANPEd Sudeste propõe o conceito de “comunicação pedagógica insurgente” para superar a abordagem folclórica das histórias e culturas africanas e indígenas nas escolas
SÃO PAULO — A professora e investigadora brasileira Adilene Cavalheiro participou, no passado dia 11 de Setembro, da 17.ª Reunião Científica Regional da ANPEd Sudeste, realizada na Universidade de São Paulo (USP), onde apresentou resultados parciais da sua pesquisa de doutoramento. O estudo propõe uma ruptura com a visão eurocêntrica e com a chamada “folclorização” dos saberes no ambiente escolar.
Intitulada “Comunicação pedagógica insurgente e desfolclorização do currículo na Educação das Relações Étnico-Raciais”, a investigação é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (PPGEd-So/UFSCar – campus Sorocaba), sob orientação da Professora Doutora Rosa Aparecida Pinheiro.
A pesquisa analisa a implementação prática da Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) no quotidiano do ensino público brasileiro, com particular atenção ao papel estratégico dos orientadores pedagógicos.
De acordo com Adilene Cavalheiro, que também atua como orientadora pedagógica na Rede Municipal de Ensino de Sorocaba, a simples inclusão de conteúdos relacionados com as histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas nos manuais escolares não é suficiente para produzir uma transformação efetiva.
O estudo propõe, por isso, uma reflexão mais profunda sobre as estruturas de poder presentes na educação, questionando quem é reconhecido como produtor de conhecimento e quais saberes continuam silenciados, marginalizados ou apresentados como secundários.
A investigação adopta uma abordagem qualitativa e colaborativa, recorrendo a questionários, narrativas autobiográficas e à constituição de um “Grupo Reflexivo-Formativo”, espaço no qual profissionais da educação analisam colectivamente as suas práticas e discutem obstáculos à construção de uma efectiva equidade étnico-racial.
Insurgência e desfolclorização
Entre os principais contributos conceptuais apresentados pela investigadora estão as noções de Comunicação Pedagógica Insurgente e Desfolclorização Curricular.
A Comunicação Pedagógica Insurgente refere-se à capacidade de mediação dos educadores para formular novos questionamentos e problematizar narrativas históricas naturalizadas pelo colonialismo cultural no currículo.
Já a Desfolclorização Curricular propõe superar abordagens que reduzem as histórias, culturas e ancestralidades negras e indígenas a eventos pontuais, festividades ou datas comemorativas. A perspectiva defendida pela investigação é a de que esses conhecimentos devem integrar o processo educativo de forma permanente, com legitimidade e reconhecimento enquanto produção de conhecimento.
Academia e escola pública em diálogo
A investigação procura aproximar a produção científica universitária da realidade concreta das escolas públicas e dos desafios enfrentados diariamente pelos profissionais da educação.
A apresentação na USP permitiu à investigadora colocar as formulações da pesquisa em diálogo com outros investigadores participantes da reunião científica, ampliando o debate em torno da educação antirracista, da formação de professores e da descolonização curricular.
A ANPEd — Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação constitui um importante espaço de produção e debate científico sobre educação no Brasil. A participação de Adilene Cavalheiro na 17.ª Reunião Científica Regional da ANPEd Sudeste coloca em evidência uma discussão cada vez mais presente no campo educacional: como transformar o currículo para que a diversidade histórica e cultural seja reconhecida não como complemento, mas como parte constitutiva do conhecimento escolar.
































