Os cantos de trabalho dos africanos e seus descendentes nas Américas – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Há um interesse especial pelo tema dos cantos de trabalho. Essa forma de manifestação cultural resulta dos cantos entoados por trabalhadores com o objetivo de ritmar a produção e organizar o trabalho coletivo.

Nas Américas, de modo geral, esses cantos tiveram origem na vinda dos africanos como pessoas escravizadas. No árduo cotidiano imposto pela escravidão, africanos e seus descendentes aprenderam a cantar para estabelecer o ritmo e a cadência da produção. Ao mesmo tempo, essa prática constituiu uma das poucas oportunidades de expressão permitidas. O uso de metáforas, de denúncias explícitas e de cantos devocionais dirigidos às divindades tornou-se uma forma de fuga diante da opressão extrema do regime escravista.

Alguns desses cantos acabaram ganhando visibilidade por meio das mídias e do interesse do público. O aspecto nefasto desse processo é que tal interesse, muitas vezes, é impulsionado pela curiosidade em relação ao “exótico”, àquilo que está distante ou fora de seu repertório cultural — em suma, ao que parece estranho por ser desconhecido.

Desse modo, oculta-se o verdadeiro sentido desses cantos de trabalho: sua origem, sua função social e a opressão que predominava nas sociedades baseadas na exploração do trabalho.

Em 1982, foi lançado o LP O canto dos escravos , com a participação de Geraldo Filme, Tia Doca da Portela e Clementina de Jesus. O disco apresenta a gravação de 14 canções que foram registradas no livro O negro e o garimpo em Minas Gerais , de Aires da Mata Machado Filho, publicado em 1943. Nessa obra, o autor coletou 65 canções conhecidas como vissungos , algumas delas usadas especificamente durante o trabalho.

Em 2007, o selo SESC São Paulo lançou o CD Cantos de Trabalho , com a Companhia Cabelo de Maria. De acordo com o site oficial do SESC, “o CD surge a partir das canções registradas de Renata Mattar, que pesquisa há mais de dez anos comunidades que ainda trabalham em mutirão e utilizam a música na lida”. A pesquisadora reuniu vasto material que, a partir do espetáculo realizado pela companhia, fez nesse registro fonográfico, reunindo cantigas de destaladeiras de fumo de Arapiraca (AL), descascadas de mandioca de Porto Real do Colégio (AL), plantadeiras de arroz de Propriá (SE), trabalhadores da colheita de cacau de Xique-Xique (BA), entre outros.

Esses cantos de trabalho, contudo, não são exclusividade do Brasil. Na década de 1950, mais precisamente em 1956, o cantor Harry Belafonte popularizou a música “Day-O” , também conhecida como “Banana Boat Song” . A canção tem origem nas músicas tradicionais dos trabalhadores jamaicanos, em especial dos carregadores de banana. Ela se aproxima do calypso , gênero musical caribenho associado a Trinidad e Tobago e à Jamaica, cujas raízes remetem à música africana trazida pelos escravizados.

“Day-O” deriva de canções folclóricas de trabalhadores negros jamaicanos ligados ao trabalho portuário de carregamento de bananas, atividade comum entre os séculos XIX e XX. Essas canções eram entoadas no formato de chamada e resposta (chamado e resposta), características das matrizes africanas, com a finalidade de marcar o ritmo do trabalho noturno e aliviar o esforço físico.

Do ponto de vista cultural e musical, a canção associa-se ao mento e ao calypso , gêneros tradicionais caribenhos que antecedem o ska e o reggae , fortemente influenciados por heranças africanas combinadas a elementos europeus e locais.

Em um dos trechos da música, o coro responde: “Trabalhar a noite toda com um drink de rum. A luz do dia vem e eu quero ir para casa” . Em tradução livre: “Trabalho a noite toda por uma dose de rum. A luz do dia chega e eu quero voltar para casa”.

A música foi utilizada em uma cena do filme Os Fantasmas se Divertem . Inserida no contexto de uma comédia, ela perde seu sentido original. Os personagens, todos de tez clara, cantam com vozes que não lhes pertencem e parecem “tomados” por uma força estranha, como se estivessem em transe. Essa representação pode ser interpretada como uma alusão estereotipada aos cultos religiosos africanos ou afro-americanos. Nesse contexto, uma canção que surgiu para ritmar um trabalho árduo e denunciar a exploração — simbolizada pelo trabalho noturno que se estende até o amanhecer — acaba convertida em uma expressão de racismo religioso na linguagem cinematográfica.

Assim, os cantos de trabalho dos africanos e de seus descendentes devem ser compreendidos não apenas como expressões musicais, mas como documentos históricos sonoros, portadores de memória, resistência e humanidade. Reduzir o entretenimento ou o exotismo é silenciar as vozes que, em meio à opressão, encontraram na música um instrumento de sobrevivência, denúncia e afirmação cultural. Reconhecer esses cantos em sua complexidade é, portanto, um passo essencial para a compreensão mais justa da formação social e cultural das Américas.

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