Os “Heróis” das Selvas e o colonialismo – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Um lorde perdido nas selvas africanas se torna o herói de um mundo exótico, desconhecido e caótico. Esse é um resumo simplista, seguramente, da história criada pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs e que ganhou fama em livros, revistas em quadrinhos, filmes para o cinema e TV, e desenhos animados: Tarzan. Apesar de confessar a redução aqui feita na descrição do personagem, é imperativo afirmar que esses traços gerais revelam a mentalidade colonialista presente numa série de heróis que tiveram características semelhantes.

A partir da Conferência de Berlim, entre os anos de 1884 e 1885, na qual as potências europeias discutiram entre si as “regras” para a partilha do continente africano, o imaginário sobre a África e a Ásia foi construído a partir de uma perspectiva eurocêntrica e branca. Os costumes, as tradições, a religiosidade, a filosofia, enfim, o modo de ser, estar, agir, reagir dos povos africanos e asiáticos foi medido a partir de parâmetros estabelecidos pela cultura europeia.    

Desse modo, os africanos e asiáticos foram vistos como atrasados culturalmente, incivilizados, selvagens, inferiores. Pouco tempo depois do domínio europeu sobre a África e partes da Ásia criaram-se personagens de desenhos (tiras de quadrinhos, por exemplo) ou de livros, com heróis carregados de preconceitos e de uma visão distorcida sobre os povos não-europeus.    

A começar pelo fato de todos esses heróis serem brancos e de origem europeia ou estadunidense. Afinal, ao que parece, a África e a Ásia foram incapazes de produzir heróis entre pessoas de seu próprio povo. Outra marca que está presente nessas histórias é que o herói se faz necessário para que possa haver justiça e paz nos territórios colonizados. É uma forma de dizer que o colonialismo foi um benefício para os povos colonizados.    

Talvez o mais antigo desses heróis seja Allan Quatermain, personagem criado pelo escritor britânico Henry Rider Haggard para um livro lançado justamente no mesmo ano do final da Conferência de Berlim (1885): “As minas do Rei Salomão”. Quatermain é um caçador e aventureiro que “explora” as diversas regiões da África em busca de caças extraordinárias e de tesouros milenares. A partir de seus conhecimentos, Quatermain auxilia as empresas colonizadoras dos europeus. O personagem Allan Quatermain foi interpretado por diversos atores do cinema. No filme “As minas do rei Salomão”, produção de 1985, ele é interpretado pelo ator Richard Chamberlain. Nessa versão fica bastante evidente a forma preconceituosa como a África é retratada.  

No início do século XX surge o mais famoso de todos esses heróis, já citado na abertura deste texto: Tarzan. Criado em 1912, a história de Tarzan conta que ele era filho de aristocratas ingleses que morreram nas selvas africanas. Tarzan é criado por macacos e recebe deles esse nome que significa “pele branca”. Curiosamente, não havia nenhum ser humano que pudesse ter criado o menino. Aparentemente, a criação por animais selvagens tenha sido a forma como o criador da história, Edgar Rice Burroughs, tenha encontrado para tornar o seu personagem um ser “especial”. Ao final, Burroughs preferiu que Tarzan fosse criado por macacos do que por humanos africanos! 

Quando ele cresce, Tarzan é resgatado das selvas e levado de volta à “civilização branca”, onde estuda e assume o seu lugar como um lorde. Mas, cansado daquela vida, retorna depois para a África e se interna novamente na selva. Encontra uma jovem estadunidense chamada Jane, com quem se casa. Torna-se o “rei da selva” e se sobrepõe aos povos africanos.

Tarzan não encontrou entre os africanos nenhuma parceira que pudesse ser digna de se tornar sua esposa. Teve de buscar nos Estados Unidos. Aqui cabe outra reflexão: por ter sido criado pelos macacos, ganhou força extraordinária e habilidades sobre-humanas. Se tivesse sido criado por humanos, talvez fosse apenas mais um a ser subjugado pelo colonialismo…

Em 1936 o desenhista e escritor estadunidense Lee Falk criou o personagem Fantasma (The Phanton). Com sua roupa característica e sua máscara, Fantasma vive na selva de Bengala (ou Bengali), um lugar misto de África com Ásia (próximo da Índia). É chamado de “Espírito que anda” porque vem de uma geração de heróis que usam o mesmo disfarce – por cerca de 400 anos – dando a impressão de que ele é imortal.         

Como na história de Tarzan, o Fantasma não encontrou nenhuma mulher digna de ser sua esposa entre os nativos do lugar onde vive. Casou-se, então, com Diana Palmer uma aventureira estadunidense. E, assim, o colonizador Fantasma pode continuar “andando” pela floresta, trazendo segurança aos nativos do lugar.

Há filmes, histórias em quadrinhos, tiras de jornal, séries de TV e desenho animado do Fantasma.        

Jim das Selvas surgiu como tira de jornal em 1934, escrita por Don Moore e desenhada por Alex Raymond. É um herói, caçador e aventureiro, uma mescla de Tarzan com Quatermain. É Jim das Selvas quem desbanca comerciantes de escravos, piratas e tantos outros criminosos que atuam na África. Afinal, como todos esses “heróis” se colocam, o continente africano dependia de alguém de fora para resolver seus problemas. É quase que uma justificativa para a partilha da África entre os países europeus, colocada aqui como um benefício. A exploração dos recursos naturais, a proliferação de mortes e doenças, o genocídio contra os povos que resistiram às investidas colonizadoras não estão presentes nessas histórias.

Em 1950 foi a vez dos italianos Augusto Pedrazza e Roberto Renzi criarem a sua versão de Tarzan a que deram o nome de Akim, o filho da Selva. Novamente, um homem branco de origem europeia presente na África para ajudar a manter a lei, a ordem e a paz. Mais uma vez, o discurso colonialista presente e reverberando seus preconceitos.

Bem mais recente, em 1978, William Hanna e Joseph Barbera criaram a versão feminina de Tarzan a que deram o nome de Jana das Selvas. Diferente dos demais, Jana reside na floresta amazônica, na América do Sul. Porém, é branca e loira, enaltecendo o padrão de quem é considerado “superior” aos demais. Antes do surgimento de Jana, a Marvel Comics havia criado em 1972 a personagem Shanna. Nascida no Zaire, Shanna era filha de um minerador de diamantes. Shanna, entretanto, é branca e loira e seus pais são descendentes de colonizadores da África.

Na história criada pela Marvel, Shanna se casa com Ka-Zar, outro personagem clone de Tarzan, criado em 1936 por Robert Byrd. Como em todas as histórias anteriores aqui citadas, os pais morrem vítimas das mazelas dos continentes “exóticos”: doenças tropicais, acidentes aéreos ou navais, assassinatos cometidos por bandidos ou por tribos selvagens… Uma visão típica da mentalidade colonialista.

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