Cultura coloca Angola no mapa do turismo – Fernando Guelengue

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Durante muitos anos, o nosso país acreditou que o petróleo, os diamantes e os recursos naturais seriam suficientes para projectar a imagem de Angola no panorama mundial. Mas é o semba, a kizomba e outros aspectos culturais que estão a provar exactamente o contrário.

Um número cada vez mais específico de estrangeiros de várias partes do mundo começa a olhar para Angola por causa da sua cultura, não apenas pela sua riqueza mineral, muito proclamada ao longo de meio século.

Estamos a falar do semba e da kizomba que deixaram de ser apenas géneros musicais, transformando-se nos representantes da identidade angolana.

Estrangeiros de vários continentes atravessam oceanos e percorrem distâncias para aprender a dançar, conhecer a história dos ritmos e descobrir os lugares onde nasceram.

O mais interessante é que além de procurar vivenciar os passos de dança, procure igualmente aqueles inconvenientes que fundaram movimentos que não geram apenas diversão, mas melhora a saúde física e emocional dos seus praticantes. Por isso, eles querem conhecer a história dos povos, a gastronomia e as línguas nacionais, os instrumentos tradicionais, os museus, as aldeias e as histórias que deram origem à música que conquistou o mundo.

Estamos a registar cada vez mais os sinais de que Angola possui um património cultural capaz de sustentar uma verdadeira indústria do turismo cultural e, se um projecto privado como o Kudissanga consegue atrair centenas de visitantes por ano, imagine-se o impacto de uma estratégia nacional integrada, envolvendo o Estado, as empresas, as universidades, os operadores turísticos e os fazedores de cultura.

Mas para isso é preciso pensar para além das paredes do ministério e das agendas dos festivais, pois se vê necessária e urgente a construção de infraestruturas culturais permanentes que façam com que os turistas permaneçam mais tempo no país, sustentando toda uma indústria cultural fabricada localmente.

É nessa ordem que aproveitamos que Angola precisa de um Museu Nacional da Música, um espaço que se quer moderno, interactivo e tecnologicamente avançado, onde o visitante encontra o processo de evolução de diferentes produtos culturais como o semba, a kizomba, a kilapanga, a rebita, a kazukuta, a tchianda, a maringa, a tchisela, o varina, o lundongo e outras variedades de géneros que contam a história real dos povos.

E para eliminar a chance de extensão de instrumentos, esse museu deveria preservar instrumentos históricos, gravar raras, vestuários, documentos, fotografias, arquivos sonoros, entrevistas e experiências imersivas, permitindo que qualquer turista compreenda a riqueza da produção musical angolana.

Seria um centro de investigação, educação e inovação cultural, capaz de receber não apenas estudantes, mas também investigadores e visitantes de todo o mundo.

Mas o museu, por si só, não basta. É urgente criar rotas nacionais do turismo cultural, ligando a capital de Luanda às Lundas, ao Moxico, ao Cuanza Sul, Benguela, Huíla, Bié, Cabinda e tantas outras províncias onde vivem manifestações culturais únicas.

Quando o turista chega ao país, ele não quer apenas assistir a um espetáculo como tal, pois o maior desejo é conhecer onde a cultura nasceu, conversar com os mestres, participar das oficinas de construção de instrumentos, provar a gastronomia tradicional e compreender o significado dos rituais que moldaram a identidade angolana.

É por isso que disse e reitero que o Festival Ngeya, que já vai na sua Vª edição, já demonstra esse potencial para transformar a cultura da Região Leste numa experiência colectiva e inclusiva para outras regiões do país.

A Bienal e a Trienal de Luanda, o FestiSumbe, o Carnaval de Luanda e tantos outros eventos podem integrar uma agenda nacional permanente, tornando Angola um destino cultural durante todo o ano e não apenas em datas específicas. E aqui, as empresas de transportes fazem promoções para que mais pessoas de todos os lados do mundo, incluindo os próprios angolanos, tenham acesso a estes eventos importantes.

Também é tempo de investir naquilo que hoje o mundo procura: centros de interpretação cultural, museus regionais, arquivos digitais, escolas de música tradicional, residências artísticas e programas de formação de guias especializados em património cultural.

Cada província possui uma riqueza que ainda permanece praticamente invisível para aqueles que nos visitam em Angola.

À semelhança da Sona e do Mbaza Congo, temos de fortalecer agora a candidatura do semba como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, pois vai valorizar igualmente outras expressões tradicionais que são específicas da identidade do nosso país.

Quanto maior for o reconhecimento internacional do nosso património, maior será o interesse do mundo em conhecer Angola.

Embora a maioria das pessoas pense que a maior riqueza de Angola seja aquela que está debaixo da terra, vimos que os nossos antepassados ​​deixaram heranças inesgotáveis ​​como a música, a dança, as línguas, os saberes tradicionais e a diversidade cultural que faz de Angola um dos países mais ricos de África em património imaterial.

Como o mundo começou a descobrir essa nossa riqueza, é fundamental usarmos a nossa criatividade para transformá-la numa estratégia nacional de desenvolvimento. Pois quando um estrangeiro chega ao país para aprender semba ou kizomba, não vem apenas procurar uma dança ou estilo musical, mas busca a alma de Angola. E essa experiência, se bem preservada e organizada, pode tornar-se um dos maiores ativos econômicos, culturais e diplomáticos do país.

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