Nascida em Sorocaba, Estado de São Paulo, Brasil, na rua Comendador Oeterer, Célia Ferraz Albertini construiu, ao longo de décadas, uma trajetória profundamente ligada à espiritualidade e à Umbanda, uma religião brasileira que mescla elementos da religiosidade indígena, africana e europeia (católica e kardecista).
Aos 13 anos, iniciou sua vivência na religião que, mais tarde, se tornaria o centro de sua vida. Em 1974, essa caminhada resultaria na fundação do Centro Espírita Templo de Umbanda 7 Giras, instituição na qual atua como orientadora espiritual.
Sua aproximação com a Umbanda, entretanto, começou ainda na infância e pelas mãos do próprio pai. Célia conta que ele incorporava, em um centro kardecista, um Preto Velho chamado Fortunato Roscond. A entidade costumava afirmar que estava feliz por prestar caridade naquele espaço, mas dizia que seu lugar seria “em terreiro de chão batido sentado em um pedaço de troncos de árvore”. Intrigado com aquela afirmação, seu pai passou a procurar um terreiro em que pudesse desenvolver um trabalho identificado com aquela entidade.
A busca terminou em 1962, quando encontrou uma casa ainda em construção chamada Pai Antônio de Aruanda. “Foi aí que meu pai começou a buscar de terreiro em terreiro, algum que trabalhasse de forma que pai Fortunato sempre trabalhou: de fazer o bem sem olhar a quem”, recorda Célia. Naquele espaço, a família começou seus primeiros passos na Umbanda.
A experiência religiosa de Célia, contudo, não se iniciou propriamente na Umbanda. Desde os três anos de idade, frequentava o catecismo kardecista no Centro Antônio de Pádua, na Vila Santana, onde posteriormente também se tornou catequista. Foi acompanhando os pais que, aos 13 anos, ingressou na Umbanda.
A trajetória familiar acabaria levando a novas experiências. Segundo Célia, no centro que frequentavam começaram a ser praticadas atividades com as quais as entidades incorporadas por seu pai e sua mãe não concordavam. “Começou infelizmente girar dinheiro pelos trabalhos que as entidades realizavam”, relata. Diante disso, a família deixou o local e passou a realizar os trabalhos em casa.
Foi nesse período que Célia e sua irmã passaram a incorporar suas entidades. A irmã trabalhava com Dona Maria das Estrelas, uma boiadeira, enquanto Célia incorporava Mãe Mariinha, uma Preta Velha. Posteriormente, também incorporaria Maria Sebastiana, da linha dos baianos.
Célia atribui a essas entidades parte fundamental de sua formação religiosa. Segundo ela, enquanto incorporadas, transmitiam ensinamentos que eram registrados por seu marido e seu cunhado. Depois, as próprias médiuns liam e estudavam aquilo que havia sido anotado, preparando-se para a criação de uma casa dedicada à caridade.
A escolha do nome da nova instituição também foi resultado de um processo de reflexão. Inicialmente, surgiu a possibilidade de “Três Marias”, em referência às entidades com as quais Célia e sua irmã trabalhavam. A solução, entretanto, veio de seu irmão Edson, que, embora não frequentasse terreiros, era, segundo Célia, um médium experiente e conhecedor do universo espiritual. “Se um dia eu abrisse um terreiro eu colocaria o nome de 7 Giras? Assim estaria homenageando as 7 linhas de Umbanda”, teria sugerido.
As entidades aprovaram a proposta e, em 1974, nasceu o Centro Espírita Templo de Umbanda 7 Giras.
A denominação da casa também expressa uma característica importante da experiência religiosa de Célia: o diálogo entre Umbanda e espiritismo kardecista. A Tenda mantém, além dos trabalhos propriamente umbandistas, momentos dedicados à chamada “mesa branca”. Para Célia, não existe uma oposição essencial entre essas experiências. “Não há diferença na espiritualidade, o que muda somente é o cenário”, explica.
Segundo ela, tanto na mesa branca quanto nos trabalhos de Umbanda, o médium desempenha a função de veículo para a comunicação espiritual. Célia também destaca a importância da leitura e da reforma interior, recorrendo aos ensinamentos de O Evangelho segundo o Espiritismo como parte de sua formação. Sua compreensão da espiritualidade está, portanto, marcada pela ideia de que diferentes manifestações podem convergir para um mesmo princípio de orientação e caridade.
Essa compreensão também ajuda a explicar outra dimensão importante de sua trajetória: a relação com João de Camargo, personagem profundamente presente na memória religiosa de Sorocaba. Para Célia, João de Camargo é “um espírito de luz que não mora só no meu coração, mas sim no coração de muitos sorocabanos e de outras pessoas que vêm de outras cidades buscar alívio, cura, conforto em sua Capela”.
A ligação com João de Camargo está também relacionada à realização do terço na capela dedicada ao religioso sorocabano. Na experiência de Célia, a devoção e a espiritualidade não precisam ser aprisionadas por fronteiras rígidas entre tradições religiosas.
Essa mesma perspectiva esteve presente quando ela participou, na década de 1990, das reuniões que deram origem à cartilha “Deus na Escola”, produzida pela Prefeitura de Sorocaba. A experiência, porém, também revelou resistências. Célia conta que foi criticada pelo diretor de um centro espírita kardecista por se apresentar como “espírita umbandista”. Ela, entretanto, mantém essa definição. Para Célia, as diferenças entre as entidades e suas características representam formas distintas de aproximação com o mundo espiritual. “Os espíritos são luz que usam características simplesmente para podermos nos dirigir a ela quando, no trabalho, ela chegar até nós”, afirma.
A relação entre diferentes tradições também aparece na maneira como a Tenda 7 Giras vivencia o calendário religioso. Um exemplo é a celebração de Nossa Senhora Aparecida, realizada em 12 de outubro. Para Célia, a santa católica corresponde, dentro da cosmologia de seu templo, a Oxum, associada às águas doces, aos rios, fontes e cachoeiras. “Nossa amada Mamãe Oxum! A Deusa do Amor!”, define.
Essa associação revela uma das características da experiência religiosa de Célia: a capacidade de estabelecer diálogos entre diferentes matrizes culturais e religiosas que fazem parte da formação brasileira. Na Umbanda praticada por ela, elementos de origem africana convivem com referências indígenas, cristãs e espíritas, compondo uma experiência religiosa própria e profundamente brasileira.
Depois de mais de cinco décadas de vivência umbandista — considerando tanto os anos anteriores à fundação do templo quanto os 52 anos transcorridos desde sua criação — Célia olha para sua trajetória como continuidade de um aprendizado que recebeu de seus pais e, sobretudo, das entidades com as quais trabalhou.
“Essa é a Umbanda que eu faço, foi o que eu aprendi e vivo essa Umbanda há 52 anos”, resume.
Sua história é, assim, também uma história de permanência. Em uma cidade marcada por diferentes tradições culturais e religiosas, a trajetória de Célia Ferraz Albertini testemunha a capacidade da Umbanda de estabelecer diálogos, incorporar referências diversas e transmitir conhecimentos entre gerações. Mais do que uma prática religiosa individual, sua experiência revela uma dimensão da cultura brasileira em que África, Europa e outras matrizes culturais se encontram, se transformam e continuam vivas no cotidiano.
Para Célia, no centro de tudo está a ideia de luz e de evolução. “A Umbanda pra mim é luz divina, luz que clareia o mundo mesmo em plena escuridão, porta que mostra o caminho para nossa evolução.”

































