Eduardo Silva: uma trajetória entre a arte, a resistência e a memória

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Eduardo Silva é um actor brasileiro. Foto: DR
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Há trajetórias artísticas que se confundem com a própria história de seu tempo. A de Eduardo Silva é uma delas. Desde o final da década de 1970, o ator vem construindo uma carreira marcada pelo teatro, pela televisão e, mais recentemente, também pela direção e preparação de elenco. São décadas de trabalho, reconhecimento e aprendizado, mas também de enfrentamento de barreiras que, no Brasil, ainda delimitam os espaços que a população negra pode ocupar.

Para Eduardo, ser negro é, por si só, um ato político. Não necessariamente porque toda ação esteja vinculada a uma militância organizada, mas porque a própria presença negra em determinados ambientes, profissões e posições sociais representa uma conquista histórica. Como ele próprio afirma: “Ser ator negro, ser negro, né, é um ato político. Ser um professor negro é um ato político. Ser um faxineiro negro é um ato político. Ser um arquiteto negro é um ato político. Ser um músico, um cantor negro é um ato político. Tudo é um ato político, sim.”

Essa percepção acompanha sua experiência profissional. Quando começou a atuar, eram frequentes os personagens estereotipados, associados à escravidão, à criminalidade e à marginalidade. Raramente os atores negros eram representados em situações cotidianas, como pais e mães de família, em relacionamentos afetivos ou ocupando posições socialmente valorizadas. Questionar esse repertório exigia cuidado. Era preciso reivindicar mudanças sem correr o risco de perder as oportunidades de trabalho, numa realidade em que até mesmo a manifestação de uma discordância poderia significar o fechamento de portas.

Ao recordar aquele período, Eduardo explica que os artistas negros precisavam questionar as representações que lhes eram destinadas, mas com muita cautela: “A gente sempre vinha questionando isso, com muito cuidado, com muita delicadeza, porque senão as portas poderiam se fechar. E nem aqueles papéis que te chamavam podia ser que você perdesse.”

A transformação desse cenário foi lenta. Eduardo observa que, desde o final dos anos 1970, a presença negra no audiovisual brasileiro vem aumentando, mas ainda em um ritmo muito aquém do necessário. As conquistas, entretanto, são resultado de uma longa caminhada coletiva, construída por artistas que, geração após geração, abriram espaços para que outros pudessem chegar. Em sua avaliação, “foi uma conquista nossa, lenta, lenta, lenta, lenta”. E acrescenta: “Tá melhor, tá melhor, mas estamos melhorando em passos de tartaruga.”

Em 1994, Eduardo recebeu o Prêmio Shell de Teatro de Melhor Ator. O reconhecimento ganhou uma dimensão histórica que ele próprio desconhecia: somente muitos anos depois, durante uma cerimônia de premiação, ao ser homenageado por outro ator negro, descobriu que havia sido o primeiro ator negro a receber aquela distinção. A informação surgiu de maneira quase casual, numa conversa após a entrega do prêmio. Até então, não tinha consciência de que seu nome ocupava esse lugar na história do teatro brasileiro.

A circunstância revela também uma questão sobre a memória e a visibilidade dos artistas negros. Na década de 1990, não havia redes sociais nem os recursos de divulgação que hoje permitem ampliar rapidamente a repercussão de uma conquista. Embora já tivesse recebido outros prêmios desde os anos 1980, Eduardo reconhece que aquele feito não produziu, à época, o impacto que poderia ter tido em sua carreira. A descoberta, aliás, foi uma surpresa para ele: “Quando ele falou: ‘Então você foi o primeiro ator negro a ganhar o Prêmio Shell?’, eu falei: ‘É?’”

Hoje, procura incorporar essa informação à sua trajetória profissional, recuperando um reconhecimento que permaneceu por muito tempo pouco conhecido. Com certa ironia, observa que passou a repetir a informação em seu currículo: “Eu comecei a colocar no meu currículo: primeiro ator negro a ganhar Prêmio Shell, primeiro ator negro a ganhar Prêmio Shell.” O fato, entretanto, não apaga uma questão mais ampla: quantas conquistas de artistas negros permanecem desconhecidas ou insuficientemente reconhecidas?

A televisão, por sua vez, reservou-lhe um lugar especial na memória de diferentes gerações. Sua participação em Castelo Rá-Tim-Bum tornou-se um dos trabalhos de maior projeção de sua carreira. O programa, com seus 90 episódios, permanece na lembrança do público e continua sendo exibido décadas depois de sua produção. Eduardo reconhece a qualidade excepcional da obra e compreende a importância que ela teve para sua popularidade. Sobre sua permanência, não economiza elogios: “Nenhum programa fica 32 anos no ar, nenhum. […] Olha a qualidade do programa.”

Entretanto, faz uma observação pertinente: a longevidade do programa acabou produzindo uma espécie de apagamento involuntário de outras etapas de sua carreira. Antes de Castelo Rá-Tim-Bum, já acumulava aproximadamente 18 anos de trabalho, com passagens por novelas conhecidas, como Anjo de Mim e Jerônimo, além de experiências no teatro e premiações. Depois do programa, continuou atuando em produções como Éramos Seis, Turma do Gueto e Uma Rosa com Amor, entre outras, além de trabalhos para séries, plataformas e montagens teatrais.

O carinho do público é recebido com respeito e gratidão. O incômodo está em ser frequentemente identificado apenas por uma personagem, como se todo o restante de sua produção artística não existisse. Eduardo resume esse sentimento com uma observação bastante significativa: “Parece que você é ator de uma personagem só, isso é que incomoda.”

Há ainda outra questão, de natureza profissional: embora o programa permaneça no ar há mais de três décadas, o ator afirma não receber remuneração proporcional à continuidade dessa exibição. É uma contradição entre a permanência de uma obra na memória coletiva e o reconhecimento material daqueles que a construíram. Ainda assim, faz questão de não transferir seu descontentamento ao público: “Eu trato bem o público de tudo quanto é jeito, nunca tratei mal ninguém.”

Nos últimos anos, a direção teatral tem sido um campo importante de sua atuação, especialmente em trabalhos que dialogam com a ancestralidade africana, a negritude e a memória. Em Preta é a Cor do Céu, montagem de 2023, abordou o conflito entre religiões de matrizes africanas e segmentos evangélicos, construindo uma narrativa em que o diabo, indignado porque pessoas negras morriam sem ir para o inferno, decide confrontar uma divindade feminina. A montagem incorporava músicas de artistas como Luiz Melodia, Tim Maia e Cartola, articulando religiosidade, humor e cultura musical brasileira.

Em Quilombo Memória, dirigiu uma história delicada sobre a relação entre uma avó e seu neto. A personagem, internada e acometida por um processo de demência, começa a perder as lembranças das histórias africanas que costumava contar. O neto, ao retirá-la da instituição, passa a recontar essas narrativas, numa tentativa de preservar a memória que a doença ameaça apagar. A obra adquire, assim, uma dimensão simbólica: a transmissão de conhecimentos entre gerações e a importância de manter vivas as histórias de um povo.

Em 2024, dirigiu Zuri, espetáculo infantojuvenil que trata da ancestralidade africana e do afrofuturismo. Mais recentemente, esteve à frente de Negras Letras, trabalho relacionado à obra de Oswaldo de Camargo, escritor e importante referência da literatura negra brasileira. São escolhas que demonstram seu interesse em levar ao palco narrativas que reconheçam a contribuição histórica e cultural da população negra.

Essa disposição para aprender com as histórias que interpreta também se manifesta em sua atividade como ator e preparador de elenco. Eduardo entende que representar alguém não pode se resumir a vestir um figurino, decorar falas e entrar em cena. Cada personagem exige pesquisa, aproximação e conhecimento. Ao interpretar profissionais de diferentes áreas, procurou conversar com médicos legistas, cardiologistas e ginecologistas. Quando representou um sacerdote, buscou compreender aspectos das tradições e das diferentes ordens religiosas. A preparação, para ele, passa necessariamente pelo conhecimento do universo que se pretende retratar.

Sua concepção sobre o ofício de ator aparece de maneira muito clara quando explica que, a cada trabalho, procura aprender sobre a realidade da personagem: “A cada trabalho você aprende muito, muito, muito, que não é só ir lá, trocar de roupa e decorar e sair fazendo, né?”

Foi esse espírito de pesquisa que marcou seu encontro com a história de João de Camargo, em um trabalho realizado durante a pandemia, com o SESC Sorocaba. Convidado inicialmente por indicação do diretor Marco Antônio Fera, Eduardo assumiu a preparação de elenco para uma produção que exigia a reconstrução de experiências e lembranças relacionadas à vida do líder religioso sorocabano, incluindo lugares que ainda existem na cidade e outros que desapareceram com o tempo.

Até então, não conhecia profundamente a história de João de Camargo. O trabalho proporcionou-lhe o contato com uma personagem histórica de grande relevância para Sorocaba e abriu caminho para novas descobertas sobre outras figuras negras da história brasileira, como Chaguinhas, associado à memória do bairro da Liberdade, e Galanga, o Chico Rei, cuja história permanece vinculada às tradições das congadas.

Ao falar dessa experiência, demonstra entusiasmo com a possibilidade de conhecer histórias que não faziam parte de seu repertório: “Foi maravilhoso ter conhecido a história do João de Camargo.” E complementa: “Como a gente aprende muito, né? A cada trabalho, né? Isso é maravilhoso. E foi nesse trabalho que nos conhecemos, né Cavalheiro?”

Eduardo refere-se ao fato de eu ter sido o roteirista do primeiro vídeo da série que o SESC produziu para falar sobre João de Camargo e os territórios negros de Sorocaba.

O episódio também revelou uma dimensão de sua postura profissional. Quando Marco Antônio Fera deixou o projeto, Eduardo chegou a considerar sua própria saída, por uma questão de ética e consideração ao profissional que o havia indicado. O SESC, entretanto, manifestou interesse em sua permanência, convidando-o a preparar o ator que assumiria o trabalho. Eduardo aceitou compreender que o convite reconhecia a qualidade de sua atuação profissional. Foi nesse contexto que se estabeleceu também seu contato com pesquisadores e pessoas ligadas à memória histórica de Sorocaba.

A trajetória de Eduardo Silva não se limita, portanto, à construção de personagens. Ela se relaciona com a possibilidade de trazer para o presente as histórias que muitas vezes permaneceram esquecidas ou foram contadas a partir de perspectivas que não contemplavam a experiência da população negra.

Sua reflexão sobre o Brasil e sobre a condição dos povos do hemisfério sul amplia ainda mais esse horizonte. Para ele, as dificuldades econômicas, sociais e políticas enfrentadas por essas populações estão relacionadas a uma estrutura histórica desigual, na qual as riquezas naturais dos países do sul sustentam, em grande medida, o padrão de vida das nações mais ricas. A luta por respeito, dignidade e reconhecimento, nesse contexto, exige empenho permanente.

É por isso que atribui à educação, à arte e ao esporte uma função que ultrapassa o entretenimento ou a formação profissional. São instrumentos capazes de produzir pessoas críticas, conscientes e questionadoras. E há governos e estruturas de poder que não demonstram interesse em favorecer esse processo. Quando a preocupação cotidiana se resume à própria sobrevivência, torna-se muito mais difícil construir perspectivas de futuro.

Ao refletir sobre essa questão, Eduardo apresenta uma compreensão bastante abrangente do papel social da cultura: “Em qualquer país, você dando educação, você dando esporte, e você dando arte para as pessoas, você vai conseguir fazer pessoas críticas, conscientes, questionadoras.”

Aos artistas, jornalistas, escritores e professores cabe, em sua compreensão, a responsabilidade de contribuir para a formação dessa consciência, cada qual dentro de suas possibilidades e utilizando os meios de que dispõe. É uma tarefa que ele considera indispensável, sobretudo em sociedades nas quais o acesso à educação, à saúde, à arte e ao esporte ainda é marcado por profundas desigualdades.

Sua conclusão é também um convite à reflexão sobre o papel daqueles que trabalham com a produção e a circulação do conhecimento: “Nós, enquanto artistas, jornalistas, escritores, professores, nós temos essa função […] tentar levar um pouco de conscientização para essas pessoas, dentro do nosso possível.”

Talvez seja essa a síntese mais significativa de sua trajetória: fazer da arte um espaço de expressão, conhecimento e transformação. Desde os primeiros trabalhos no final dos anos 1970, passando pelo reconhecimento no teatro, pela popularidade conquistada na televisão e pelas experiências recentes na direção e preparação de elenco, Eduardo Silva vem participando de uma luta que não é exclusivamente sua.

Sua história é também a de muitos artistas negros que precisaram conquistar, passo a passo, o direito de representar personagens diferentes daqueles que lhes eram historicamente destinados. É a história de uma presença que questiona estereótipos, recupera memórias e reivindica outros lugares para a população negra na sociedade brasileira.

Afinal, como ele próprio sintetiza, ser ator negro é um ato político. Mas também o é ser professor, músico, arquiteto ou exercer qualquer profissão em uma sociedade ainda marcada pelo racismo. A arte, nesse percurso, não aparece como algo separado da vida: é uma das maneiras de compreender o mundo, questioná-lo e contribuir para transformá-lo.

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