“De Á a Zambi”: um reencontro com a própria ancestralidade – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Capa do livro e fotografia dos autores. Foto: DR
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É natural do ser humano a busca pela sua origem. Esse é um tema bastante caro para as mitologias, mas, também, para as escrituras sagradas de todos os povos. O reconhecer-se como ser humano pressupõe a necessidade de saber contar a própria história. Saber a própria origem recupera em nós o sentimento de pertença a algo maior do que um corpo isolado.

E quanto mais nos aprofundamos na busca por nossas raízes, maior é a consciência do quanto essa História completa o sentido para a nossa vida hoje.  Na década de 1970, no Brasil, veiculou-se pela televisão a série “Roots” (Raízes), baseada no livro “Roots – a The Saga of an American Family”, de Alex Haley. A sua busca por seu antepassado africano – Kunta Kinte – rendeu a Alex Haley não apenas o trabalho árduo de uma intensa pesquisa, mas, também, uma identificação étnico-cultural. Alex Haley pode agora dizer que é descendente de Kunta Kinte, um homem com uma história. Um sujeito histórico.

Guardadas as devidas proporções, este talvez tenha sido o elemento motivador para que o jornalista brasileiro Werinton Kermes fosse estimulado a escrever, juntamente com seu pai, um glossário a que chamou de “apanhado afetivo de palavras africanas na religiosidade e no cotidiano brasileiro”, e, ao qual, deu o título final de “De À a Zambi”.

O trabalho é resultado de uma coleção de palavras de origem africana conhecidas por Fidelcino Marsal, pai de Werinton, por meio da convivência familiar com pais e avós de origem africana. As palavras contidas nesse glossário são, em grande parte, de procedência banto, o que pode indicar a identificação familiar dos autores.

A situação de escravização imposta aos povos africanos teve consequências gravíssimas. Uma delas é a imposição da colonialidade do ser pelo colonizador, com objetivo de destituir de humanidade os povos escravizados. Tratados como “coisas” ou “objetos”, tiveram sua história e memória identitária desvalorizadas e desrespeitadas. Não é tarefa fácil rastrear, como fez Alex Haley, a história familiar quando os registros oficiais são incertos ou quando são inexistentes.

A mudança coercitiva do nome, a procedência duvidosa e o pertencimento étnico apagado são comuns nos registros “oficiais”. Kunta Kinte, por exemplo, tornou-se Toby. O nome de seus ancestrais, sua tribo, seu grupo étnico em geral foram substituídos por uma informação que se restringia ao local do porto de embarque na África.

Também não é tarefa fácil reconstruir essa identificação quando se vive num país que desqualifica a origem africana. O preconceito e o racismo ainda imperam nas mentalidades menos arejadas de nossa sociedade. Além disso, o apagamento da história dos africanos que foram escravizados não permite, na maior parte das vezes, um aprofundamento no estudo das origens familiares: saber que se é descendente de “africano” acrescenta muito pouco. É quase que semelhante a dizer-se descendente de “europeu”, sem determinar a qual povo da Europa se refere.

Afinal, há uma diferença cultural entre alemães, franceses, italianos, ingleses ou portugueses. São povos distintos, de línguas distintas, costumes outros, tradições diferentes. Assim como são diferentes os nagôs dos hamer, tutsi dos hutus, cabindas dos hauçás e assim por diante.

A realização de um trabalho como o que deu resultado ao livro “De Á a Zambi”, de autoria de Fidelcino Marsal e Werinton Kermes, portanto, é muito mais do que acalmar a ânsia do sentimento de perda de uma informação. Trata-se de uma reconstrução de uma reexistência que promove um reencontro com sua própria ancestralidade.

Não bastasse a sua importância enquanto referência para diversos estudos – desde a Linguística, passando pela História, pelo Folclore, pela Antropologia e as Ciências das Religiões – o livro em questão serve ainda de lição de vida e estímulo a tantos outros que procuram por sua identificação na pesquisa da origem familiar.

Os autores alegam que é resultado de uma “pesquisa amadora, sem técnicas acadêmicas”. Não há necessidade. Este é um trabalho pautado pelo afeto e pelo reencontro, por sentimentos tão humanos que chega a ser poético.

É como publicar um livro de receitas de nossa avó. É dar vida novamente a toda uma linhagem ancestral. É reviver os ancestrais que estavam esquecidos e, portanto, mortos.

Curiosidades sobre o livro

Alguns termos contidos no livro como verbetes trazem palavras em português do Brasil que ganham novo sentido ao serem apropriados por determinados grupos. Legião, por exemplo, é descrita como uma falange ou “conjunto de seres espirituais de grande evolução, conjunto de espíritos elementares (exus) em evolução”. Nesse exemplo, vemos a influência do kardecismo e da umbanda no tocante à crença da progressiva “evolução” espiritual dos seres.

Outros verbetes referem-se nitidamente a palavras africanas. Por exemplo, Ganga que, segundo esse vocabulário, “na realidade ‘nganga’ palavra de origem quimbundo significa mágico, feiticeiro ou vidente”. Já Zambi (Nzambi) é tido como “deus supremo na umbanda”.

De acordo com Werinton Kermes, um dos autores, esse trabalho “começou a ser feito a partir do que era falado em minha casa e se estendeu a buscar outras palavras, seja em outras publicações, conversando com lideranças de religiões de matriz afro ou mesmo com muitos de seus adeptos”.

Fidelcino Marsal, pai de Werinton e co-autor dessa obra, é neto e bisneto de escravizados, dos quais pouca informação se tem, pois “não foi possível encontrar registros, apenas histórias que passaram de geração a geração”.

O livro foi publicado pela Editora Provocare, que pode ser encontrada aqui: Werinton Kermes <werintonfoto@gmail.com>.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Muito interessante… Professor Carlos Cavalheiro sempre trazendo informações relevantes para os estudos e conhecimento de todos os interessados pela temática. Gratidão 🙏🏼🙏🏼🙏🏼

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