O saxofonista lamenta o não reconhecimento de muitos músicos pelo Estado Angolano, que com as suas vozes, ajudaram na Luta de Libertação do País e agradece o reconhecimento do público, pois considera que sem o mesmo os músicos não seriam nada.

Referindo-se sobre a relação dos músicos com outras instituições não governamentais, o músico realça a falta de união entre os artistas, no geral, e alerta que esta desunião pode dificultar a internacionalização da música angolana.

Assim, o instrumentista critica a falta de união que há entre os candidatos da UNAC-SA, pois propõe que devia haver uma lista única, a qual seria composta por profissionais competentes das várias áreas que compõe esta Instituição

Fernando Guelengue
& Pedro Muhongo (texto)
Guilherme da Silva (fotos)

E como está, no geral, o relacionamento dos artistas com as associações, as fundações e os institutos de formação, a nível do renascimento da cultura angolana?
Está um pouco complicado, porque nem todos nós temos o espírito de colaboração. Generalizando, nós, os artistas, somos muitos egoístas, estamos sempre a pensar no “eu” e não em “nós”. Quando digo em “nós”, estou a falar do País para que a nossa música cresça e possamos estar, por exemplo, em França, onde é o centro mundial da música africana. Neste caso, essa dificuldade não devia existir, pois dificulta a internacionalização da música angolana.

Aquando da audiência que foi concedida aos artistas pelo Presidente da República, João Lourenço, chegou a falar sobre a internacionalização da Cultura Angolana?
Sim, este foi um dos factos! Eu, pessoalmente, quando falei com Ele (Presidente da República) ficou muito feliz. Depois, houve a colaboração de todos, abordamos sobre a questão da fábrica de CD, porque muita gente se esquece de que nós, Angola, pertencemos à África Austral. Nós estamos no centro da África, ou seja, estamos no ponto estratégico do continente. Temos aqui ao lado, os nossos vizinhos, a República Democrática do Congo (RDC) e a República do Congo, que  podem ser os nossos maiores clientes na fábrica de discos. No tempo Colonial (Português), quando tínhamos cinco fábricas de vinis, a África do Sul vinha imprimi-los em Angola. Essa é a informação que devia ser passada, porque neste tempo, os portugueses sempre perceberam que nós éramos um ponto estratégico em indústria. Não era, por acaso, que Angola era o país africano que fabricava todos os vinis dos PALOP, através da Valentim de Carvalho, Fabiang e a Companhia Disco de Angola, em que Carlitos Vieira Dias, era o supervisor musical. Foi informado à sua Excelência (Presidente da República) a importância de tudo isso, pois a música é uma indústria. Quer dizer que, ainda não a olhamos bem como indústria no plano actual do País.

A música é o sector mais objectivo da cultura e que mais facilmente chega ao público, porque o resto do sectores leva tempo

É nesse plano que queríamos falar, porque o Presidente da República afirmou, no seu discurso sobre o Estado da Nação, que o plano está a ser elaborado, mas apenas citou o livro. Há muita falta de apoio do Executivo nesse sentido para olhar a Cultura (música, teatro, dança), como indústria que pode captar recursos para o Estado?
A música faz parte do turismo, há um paralelo a ser levado em conta, que é: se quisermos falar de turismo, temos de falar automaticamente da música. E aí podemos dizer da Cultura, onde se inclui o Livro, o Teatro e as Artes Plásticas. A música é o sector mais objectivo da cultura e que mais facilmente chega ao público, porque o resto do sectores leva tempo. Temos hoje as redes sociais, que nos facilitam tudo isso. Não é por acaso, que faço uma questão sobre a conquista da nossa Independência (em 1975), ou seja, quem foram os que mobilizaram o Povo? Quem cantou para o Povo? Como se conquistou à simpatia dos militares para nossa Independência? Foi a música e não mais outro sector da cultura! Então, está aqui lançado um dado que é necessário olharem para nós com respeito.  Pois, nós temos histórias e precisamos agora que haja uma colaboração entre os músicos, escritores, compositores e outros. Tem de existir essa conexão, mas gostaríamos que houvesse uma boa relação entre o Ministério da Cultura e o da Hotelaria e Turismo.

A ministra diz que não é papel do seu ministério apoiar artistas, qual é a sua opinião?

De facto, ela tem razão! A instituição Ministério da Cultura (Minicult) não tem o papel de apoiar (os artistas), mas de criar condições de trabalho.

Tem visto essa criação de condições?
Não. É o que não tem acontecido, por um lado. Por outro lado, nós temos de nos unir mais à UNAC-SA, ela é a nossa força. É a associação da qual, queiramos ou não, consegue trabalhar muito para nós (os artistas), ou seja, defender-nos. O Ministério da Cultura é uma instituição que pertence ao Estado. No entanto, nós, como fazedores de Artes, a nossa função é dar a cara. O Minicult é estático, pelo contrário, nós somos o movimento, o dia-a-dia e o contacto. Se calhar, quando a ministra (Carolina Cerqueira) respondeu, fosse neste sentido. Agora, a que criar as condições necessárias, nunca olhar a música como o plano inferior de todo Ministério da Cultura. Porque, se calhar, estamos no plano superior.

Falou que a música teve muita influência no processo de Libertação do País. Entre as disciplinas culturais chegou a ser o cartão de visita deste movimento contestatário?
A que se olhar neste sentido, nós não podemos ser apenas enteados, nós somos filhos como todos os outros.

Sente algum reconhecimento do Estado em relação aos músicos que fizeram a parte da Luta da Independência Nacional?
Muito pouco! Há uma ou outra situação de relevo, mas no meu caso pessoal, nada! 

Já recebeu um diploma de mérito pelo seu trabalho?
Nada, zero!

Acha que são estas coisas que o Ministério da Cultura devia fazer?
Infelizmente, não fez até hoje! A minha função na música não é pedir ou ser pedinte. Até agora, ao contrário do que se fala, eu faço. Enquanto eu fizer, continuará a ser muito bom, quer para mim, quer para o País e essencialmente para o nosso Povo, porque ele gosta de nós: hoje sou Nanutu, pois o Povo reconheceu. Este (o público), sim, – são os nossos suportes! Porque, se ele não comprar os nossos CD’s e não nos disserem, com alegria, continuem, já mais seríamos os músicos que somos!

Já ganhou um prémio como instrumentista num dos concursos realizado em Angola?
Que eu me lembre, já recebi um prémio dos Top dos Mais Queridos, na categoria de “Melhor Produção e Masterização”, que eu agora não estou a lembrar justamente o nome. Eu estou a falar de uns 10 anos atrás, porque o Paulo Flores tinha ganhado antes.

António Manuel Fernandes (Nanutu), saxofonista angolano de carreira internacional.

Que avaliação faz dos concursos musicais angolanos?
Nos concursos musicais, há coisas boas, mas há muitas coisas por clarificar, porque às vezes, as categorias não são bem delineadas. Quando se faz um  concurso, é bom que se justifique com clareza as categorias, para que não haja erros. O que temos visto nas categorias, é uma reclamação, sempre que se realiza um concurso. Ainda assim, isto tem a ver com as divergências nas diferentes categorias, embora uma ou outra esteja bem. Eu não digo mais dos instrumentistas, porque estamos completamente esquecidos, ou seja, de botas arrumadas. Mas, temos os currículos superiores mais do que muito que participam nestes concursos. De qualquer de forma, nós compreendemos objectivos dos concursos, que é também a sua popularização, partindo por outros  pressupostos e colhendo outros frutos. Se quiserem também aprender um pouco mais, falem connosco, pois podemos ajudar.

Já participou em alguns festival de instrumental em Angola ou no mundo?
Em Angola, sim – num festival de jazz no Atlântico. No mesmo dia tocaram bons instrumentistas como o guitarrista George Benson e sul-africanos.

Como os responsáveis do nosso País nos vão olhar com respeito, se nós, neste aspecto, não nos estamos a fazer respeitar?

Nanutu disse, ao longo da entrevista, que os músico não estão a ser bem valorizados, acerca daquilo que tem feito em prol da Cultura. Acha que a UNAC tem feito pouco para que os músicos sejam valorizados?
Também. E vou meter o dedo na feriada! Ao invés de nós, os artistas e os músicos, da lista A e B perderem tempo a lavar roupa suja nas redes sociais, deveríamos unir-nos, isto é, fazer uma lista única, com todos os experientes das áreas de músicas e fazermos uma associação fortíssima, que não foi o caso. É, neste momento, uma perca de tempo e uma vergonha para a nossa classe, termos uma eleição – para os órgãos da UNAC – em pleno tribunal, isto é feio! É uma vergonha, porque como os responsáveis do nosso País nos vão olhar com respeito, se nós, neste aspecto, não nos estamos a fazer respeitar? Do meu ponto de vista, era criar uma lista única, sem zangas, de cabeça fria, porque o passado é passado, já não há como recuperar. Isto é, partirmos do zero e criarmos uma associação forte! Faltam-nos este sentido de unidade, que nos está a prejudicar muito quando há avaliação do Orçamento Geral do Estado para a Cultura e no campo concreto da música, embora tenhamos a última fatia que não dá para se fazer música, condições que o Ministério da Cultura tem de criar.

Mas, cabe-nos a responsabilidade de fazer ressuscitar aquela grande chama, que foi a UNAC quando entrou Alberto Teta Lando. Tivemos mais unidos, tínhamos mais maturidade, crescemos nesta altura, pagávamos a nossas quotas e criou-se a carteira profissional, que era um défice que nós tínhamos. No entanto, queremos muito mais!

Sabemos que completou 45 anos de carreira, porque decidiu fazer um concerto?
O objectivo deste concerto foi justamente chamar a razão de que existe um instrumentista de sopro há muito anos e que tem a sua história (registada). Mas, tendo a sua história nunca foi egoísta, porque para além de ser instrumentista de sopro, sempre fez parceria e pertenceu aos maiores e melhores grupos angolanos. Também neste espectáculo, estiveram os Quatros Mwangolês Sax, nomeadamente eu, Sanguito, Massy e Franco. Depois, o espectáculo procurou demonstrar toda a experiência, quer discográfica, quer de palco que tive durante estes longos anos. E musicalmente, o que se passou no palco, foi uma interacção com os artistas e os participantes.

Nanutu é um saxofonista angolano com mais de 40 anos de carreira profissional.

Durante a apresentação do espectáculo, fez uma homenagem aos teus antigos e colegas como Urbano de Castro e David Zé, da mesma forma que fez no Palácio de Ferro?
Sim, em algumas músicas, porque estão inclusas nos instrumentais que toquei e também, por outro lado, dizer muito obrigado a eles, pois, afinal de conta, eu vim detrás. Só existo, porque eles existiram.

Só existo, porque eles existiram e criticaram-me para o meu bem; existo, porque cresci e o público reconheceu e comprou os meus CDs

Quando se refere a eles, está a referir-se aos colegas do Fapla-Povo?
Sim, não só instrumentistas de sopros, estou a falar de todos os artistas como Urbano de Castro, Artur Nunes, David Zé, Santocas e outros. Só existo, porque eles existiram e criticaram-me para o meu bem; existo, porque cresci e o público reconheceu e comprou os meus CDs. Assim, os 45 anos rezam todo isto. Por outro lado, expliquei, neste espectáculo, um pouco das parcerias que fiz com muitos artistas, em que o saxofone deu muitos prémios aos artistas da nova geração como Nsoki, com a música “Meu Anjo”. Quer dizer que, o saxofone de Nanutu não só foi participação, como também valorizou a música angolana e outros grandes artistas. Gravei com muitos artistas da nova geração como Yuri da Cunha, Matias Damásio, Yola Semedo, Ivan Alekxei, Ary e outros; com antiga geração, gravei com Lulas da Paixão, Elias Dya Kimuezo, Carlos Burity, Teta Lando, Lulas da Paixão, Bangão e outro. Um outro exemplo, é o caso da música de Zécax, “Teresita”. Portanto, o saxofone de Nanutu esteve sempre presente e influenciou que estas músicas fossem um sucesso.

O artista quando precisa, vem ter com o instrumentista. No estúdio, o instrumentista trabalha, grava e a música tornar-se um sucesso, mas os artistas é que têm os louvores. E grande parte dos artistas, nos estúdios, não fazem nada! Esta é grande verdade

Normalmente, os artistas não citam os instrumentistas, por quê?
Infelizmente, é a parte egoísta do artista. Sem quer mencionar nomes e ferir sensibilidades, o artista quando precisa, vem ter com o instrumentista. No estúdio, o instrumentista trabalha, grava e a música tornar-se um sucesso, mas os artistas é que têm os louvores. E grande parte dos artistas, nos estúdios, não fazem nada! Esta é grande verdade. E temos de dizer isto com clareza, até para o próprio artista perceber que ele tem um tempo e pode desaparecer. Pelo contrário, o instrumentista permanece. É a sociedade e os artistas que temos, mas devemos mudar as mentalidades.

Se os músicos da nova geração cantam, na sua maioria das vezes, em português, como irão transmitir as nossas músicas tradicionais às gerações vindouras?
Eles não querem aprender as nossas músicas tradicionais. É destas músicas que vêm a dicção para a música popular e para outros bons géneros musicais que existem como o kuduro, raggae, afrobeat, semba, kilapanga, kizomba e os outros. Quer dizer que, se conseguirmos passar pela música tradicional, criaremos o verdadeiro alicerce, pois fiz muitos estudos destes trabalhos. Inclusive, ia à então biblioteca da Rádio Nacional de Angola buscar ritmos tradicionais de outros países, para além de andar pelas províncias para fazer a recolha de ritmos tradicionais. Portanto, todo este trabalho facilita à execução de instrumentos de sopro. Eu posso, por exemplo, dizer com saxofone “muito obrigado” em português ou “ngasakidila”, em kimbundu, a dicção é completamente diferente, coisa que faço na prática. Isto é interessante, pois é daí , onde ganha o “calo” e a técnica. No meu caso, aprendi tudo isto e simplifiquei, por isso a minha música passou do tradicional para o popular. Por exemplo, em algumas províncias onde vou tocar, sou mais conhecido que muitos cantores. Eu, inclusive, já fui tocar na Jamba, depois da sua libertação.

A convite de quem?
A convite do Governo (Executivo), toquei com o grupo da UNITA (União Nacional para Independência Total de Angola) que se encontrava lá. E quando cheguei, eles conheciam-me, não pela televisão, por meio da rádio. Não foi preciso, eles terem-me assistido pela televisão, com a dicção foi fácil, conhecerem-me. Quando cheguei lá, toquei com facilidade, por conseguinte para chegar até aí, é preciso trabalho. Os 45 anos estão justamente envolto em todo este trabalho.

Nestes 45 anos de carreira, chegou a tocar Kuduro?
Sim, ao vivo.

Com que músico?
Foi com Dj Malvado, na Huíla.

A percussão tradicional é uma base que nos dá o jogo de cintura para podermos tocar outros ritmos

Como foi pôr o teu som no Kuduro?
Nada é impossível! É uma questão de querer. Se os kuduristas quiserem a minha participação, também será possível. É uma forma de os fazer ver que não é só a mensagem escritas que podem passar (transmitir). A nossa melodia também pode ser introduzida neste conceito, porque é nosso e não custa nada – é uma questão de crer. Eu, com o saxofone, posso fazer música, ouvindo as suas palavras, em qualquer língua nacional como tckokwe, kikongo, nganguela, fiote, kimbundu e umbundu. Se nós conseguirmos explorar este lado, será melhor para nós.

Isto é um conselho que deixo a todos os instrumentistas de sopro. A percussão tradicional é uma base que nos dá o jogo de cintura para podermos tocar outros ritmos. Depois daí, desenvolvemos a harmonia, que é a guitarra e piano para fazemos a nossa melodia, isto é didáctica!

PERFIL:
António Manuel Fernandes, “Nanutu”, considerado um dos três melhores saxofonistas africanos, começa a tocar instrumento musical aos 7 anos, na Casa dos Rapazes de Luanda. Naquela altura, é escolhido para tocar o clarinete numa banda do orfanato católico.

Frequentou o 7º ano na Academia de Música de Luanda. Foi para o Auto Estúdio de Jazz, em Portugal, em 1992, onde começou a fazer Música Clássica, ainda na Blue Blanker. A seguir, foi para Estado Unidos da América, na Baker School, em Boston; depois, para República Dominicana, no Conservatório de Santo Domingos a aprender Merengue e mis tarde foi a Havana, Cuba, no Conservatório Nacional.   

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