O Nagrelha é chorado porque é o nosso ‘morto’” – Tchenguita Tchihuaku

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Tchenguita Tchihuaku é o pseudónimo de Maria Luísa Fernando Garcia- Foto: DR
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Ninguém explica sentimento de pertença. O Nagrelha é chorado porque é o nosso “morto”! O nosso, dos poucos que sentou na mesa onde todos nós desejávamos sentar.

Angola é um país essencialmente nepotista e de monopólios. Por este motivo, os poucos que sobressaem por “mérito” são adorados pelo público. Angolanos como nós.

Dentro do ramo musical e de entretenimento no geral, a maioria das pessoas tem pai, tio, avó com influência política. Gostamos de algumas, mas não as amamos.

Nagrelha não cresceu em Portugal e vinha passar férias em Angola. Ele saiu de um bairro em que nós podemos apontar o dedo, de uma rua em que nós podemos passar. Passou pelas mesmas dificuldades que a maioria de nós, lhes foram negados os mesmos direitos que nós. 

Ainda assim chegou onde a maioria de nós nunca irá chegar. São poucos os artistas angolanos que vamos genuinamente chorar. Muitos de nós respeitamos uns tantos, ficámos tristes pelo legado cultural que possam deixar. Mas sentir a dor vem da conexão que criamos com as pessoas.

Gostamos da Pérola, mas amamos a Ary. Sabemos exactamente porquê amamos uma em detrimento da outra. Apesar de todos os xinguilamentos possíveis, o Gerilson Insrael nos diz muito mais do que os Dream Boys, por exemplo. Assim como o Filho do Zua e tantos outros. São nossos. Viveram nos nossos bairros, ainda carregam os nossos hábitos. Claro que nenhum dos citados tem a dimensão do Nagrelha. 

Mas é preciso compreender por que estamos a chorá-lo, ele é o nosso morto. Assim como Chadwick Boseman também o foi. Este por causa da raça, aquele por causa da classe.

Nagrelha é nosso porque vem do mesmo lugar que nós. Isso não se explica, sente-se.

Claro que a análise mais profunda entra também no estilo de música e nas letras. Essa aqui feita é mais sociológica, talvez. Perdoem-me a ousadia, caros Sociólogos.

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Tchenguita Tchihuaku é o pseudónimo de Maria Luísa Fernando Garcia, de 25 anos de idade , foi indicada pelo Bloco Democrático como candidata à Assembleia Nacional pela UNITA-FPU.

É membro da coordenação do Ondjango Feminista. Começou o seu activismo em 2015 com o advento das redes sociais como maiores espaços de difusão do pensamento crítico.

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