2 minutinhos – Guigo Ribeiro

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Oi… tudo bem? Cê tá me vendo? Oi! Bom dia. Ou tarde. Sejam bem-vindos a mais esta produção vazia, mas é que eu preciso. Preciso produzir conteúdo constantemente, regularmente, frequentemente porque esse é meu trabalho. Produzir conteúdo, um atrás do outro sem bem saber o quê ou pra quê.

Meu primeiro viral foi uma bolsa de excrementos atirada em um idoso na avenida principal. A galera amou! O segundo, gritos aleatórios no transporte público. A galera amou! Quando chega em 1 milhão, a vida muda e a gente precisa de 2 milhões, 4 milhões. A gente vive assim agora. Com um USB preso no rabo.

Oi. Tô falando muito rápido? Porque os vídeos curtes rendem mais. Preciso falar tudo em segundos. Curto, bem curto. Assim rende mais.

Meu terceiro viral eu peidava pra câmera e ria com os brothers. Ganhei fãs, seguidores. Pouco a pouco. Você tá me ouvindo? Vou te contar algo que nunca contei em outro lugar e vai dar um bom corte. Certa vez, na minha antiga cidade, comi laranja. É a primeira vez que falo isso. Isso é exclusivo, hein.

Ninguém tem. Vai ser um bom corte. Um ótimo corte. Um magnífico corte. Tenho investido em outras ações pra potencializar meu alcance. A ideia é chegar no máximo de lugares possíveis mesmo sem ter o que fazer neles.

Marcas me procuram e faço publis. Sou um influencer, criador de conteúdo digital, blogueiro, instagramer… acho que fala assim. Sou uma pessoa pública em um universo digital em que não sou ninguém.

Quem sabe, sou uma coisa. Isso tem que durar 2 minutos. 2 minutos no máximo. Do contrário, perdem o foco. Vou ser pai. Minha mulher, siga ela no @mulherdoinfluencer, tá grávida e teremos um baby que chega em setembro. Siga meu baby no @babyquechegaemsetembro.

Lá vocês terão acessos exclusivos em que meu papai e minha mamãe se preparam pra minha chegada no mundo. Meu baby já tá com 200 mil seguidores ansiosos, acompanhando seu diário de bordo na barriga.

Ela é a mais jovem influencer do mundo, dando dicas de moda, comportamento, alimentação, fé e saúde. Siga o papai aqui também que tem 2 milhões e 500 no reserva. Lá eu ensino sobre empreendedorismo, conhece? Tem um método exclusivo desenvolvido nas ruas.

Vi meninos pedindo dinheiro e fiz um vídeo lindo em que finjo mudar a vida deles. Coloquei um piano na trilha sonora, uma legenda oportunista e ganhei um valor surreal pelo engajamento. Não vi eles mais e pouco importa. Foram salvos pelos 100 que dei para empreenderem.

Também tem vídeo novo no meu canal dirigindo um carro caro alugado e ensinando sobre prosperidade. Isso tá passando de 2 minutos? Combinei um caso com outra influenciadora. A gente deixa no ar a possibilidade de um envolvimento. Eu era solteiro. Hoje sou casado e falo de Deus.

Mas na época, ganhava seguidores dela. Ela, de mim. Nos enchemos de números vazios iguais a gente. Eu danço e você assiste. Ombro pra lá e pra cá. Contido porque não sei dançar, mas dá engajamento.

Depois eu danço e você assiste. Ombrinho pra lá e pra cá. Contido porque não sei, mas dá engajamento. Depois eu danço e você assiste. Ombro pra lá e pra cá. Contido porque não sei, mas dá engajamento. Eu danço e você compra.

Minha cara não é como você vê, mas o filtro é a maior invenção estética desde o Minoxidil. Te contei do affair? A gente transava num cemitério. Éramos jovens e loucos e isso dá engajamento visto que hoje sou de Deus.

Misericórdia! Éramos jovens e inconsequentes. Eu voto. Faço campanha pra quem me pagar. Me pagam porque influencio. Se tem meu nome, dá views, faço reels e sigo a dinâmica clássica da celebridade de internet. Às vezes, sem querer, sou racista.

Apesar de ter funcionários negros, sou estrategicamente racista pra ser racista, me retratar e alcançar pessoas sensíveis ao meu pedido de perdão. Às vezes eu jogo uma polêmica. De outro jeito, me esquecem.

Me esquecem. Por favor, não me esqueçam. Eu salvo aviões, dou conselhos matrimoniais, cavo lutas contra pugilistas aposentados, salvo vidas vulneráveis, sou fiel ao meu casamento, tenho uma arma, crio músculos, uma gato que ainda não engajei, mas vou, fui o maior atleta do meu tempo e esqueceram isso por inveja, como saudável e enriqueço assim.

Enquanto você desliza ou dedo pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima, pra cima… me segue? Explodi os 2 minutos? Vou editar. Editar, editar, editar, editar…

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Guigo Ribeiro
Guigo Ribeiro é um artista brasileiro fazedor de literatura, música e teatro que tem estado a liderar e apoiar pessoas com deficiência através da ptrática de teatro com o grupo Museatro.

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