O artista que vem de uma família de músicos e cristãos tem-se notabilizado como uma referência na guitarra do jazz. Segundo ele, todos os seus irmãos são músicos, seu pai era pastor de uma igreja. Começou a ter contacto com a música na igreja, observando os adultos. Mas, não aprendeu a tocar a guitarra na igreja. Desde pequeno, a sua mãe dizia que brincava com o comando da TV como se fosse uma guitarra, isto é, fingia que estava no palco e foi nesta curiosidade que desviava o dinheiro das propinas escolares para pagar um mais velho que o ensinava a tocar.

O nome artístico Larson foi atribuído pela sua professora de informática. Mas, para ele significa craque, por motivo de um jogador de futebol sueco que tem o mesmo nome.

Pedro Muhongo (texto)
Francisco Kachita (fotos)

Segundo alguns artistas que temos estado a entrevistar, dizem-nos que no mercado angolano, no que toca a realização de eventos, é controlado por grupo de pessoas, ou seja, há um oligopólio. Qual é a opinião que tens acerca disso?

Isto mata o desenvolvimento da música porque o Ministério da Cultura deve saber que Angola precisa de jovens, de novas energias. Não devemos ter, em eventos musicais, apenas uma banda ou uma equipa. Devemos explorar diferentes sonoridades. Sei que há projectos com banda permanente, porém, não para todas as actividades. Assim sendo, a partir dessa diversidade, podemos descobrir vários talentos que criam outras ideias. Não se pode esperar de Divino Larson, quando ganha um prémio internacional, logo, algumas pessoas se gabarem de que é angolano. Devemos dar oportunidade a outros instrumentistas para que haja uma troca de experiências. Por isso, devemos organizar eventos com novos talentos ou instrumentistas a fim de que o mercado tenha um equilíbrio.

Há produtores que defendem que se eles organizassem eventos com artistas novos, não teriam grande adesão do público, ou seja, não iriam recuperar o investimento. Concordas com essa opinião?
Não aceito esta opinião. Porque não devemos fazer as coisas pensando só no presente, mas também no futuro. É importante trabalhar também em colaboração com outros instrumentistas. Embora os produtores digam isso, porém, não vejo mal qualquer se associarem aos outros. Porque, nem sempre irão permanecer com os mesmos músicos por toda vida. Portanto, temos visto vários músicos que desaparecem dos palcos por esse motivo. Pode fazer mistura entre novos talentos e cantores consagrados, penso que haveria sempre adesão do público, ou seja, iriam recuperar os seus investimentos. Por exemplo, eu tinha o sonho de tocar ao lado de Bangão, mas nunca tive esta oportunidade. Sempre que houvesse um evento em que estávamos inclusos, eu e Bangão, diziam-me que a banda que vai acompanhá-lo era a Banda Maravilha. Nós, da nova geração, que estamos a vir, o que esperam para falarmos da nossa carreira musical? Qual é a experiência que iremos beber dos mais velhos? Eles (produtores) não permitem que haja este intercâmbio entre os músicos. Este calor (entre os músicos) é muito saudável para o desenvolvimento da música.            Só em Angola é que observo que apenas uma banda, tem de acompanhar todos os músicos: isto não bom!

O que tens a dizer dos espectáculos ao vivo?

A música ao vivo está no bom caminho. Mas, há sempre algumas barreiras. Alguns músicos continuam com a ideia de tocar em forma de playback ou com auxílio de um DJ. Os artistas angolanos têm de se esforçarem muito para tocarem ao vivo, porque requer muitos ensaios para que não haja falhas no dia da actuação. Isto faz com que no dia D, não haja problemas, como uma desafinação por parte de alguns guitarristas. Se continuarmos a apostar neste caminho, teremos muitos espectáculos ao vivo.

O pouco domínio ou conhecimento da música ao vivo, influência com que eles tocam mais em play back do que ao vivo?
Não.

O lucro é bom, mais o trabalho é mais importante. Não é correcto ter-se bom lucro, com a realização de um trabalho mal feito!

 

Então, o que se passa?
Existem outros motivos. Muitos artistas não gostam de investir nas suas carreiras. A realização de um espectáculo ao vivo vêem-na como uma despesa enorme. Por isso, preferem fazer um evento em playback a evento ao vivo. Como me perguntaste a pouco, acerca dos produtores que estão mais preocupados com lucros: o lucro é bom, mais o trabalho é mais importante. Não é correcto ter-se bom lucro, com a realização de um trabalho mal feito!

Qual é o evento mais importante em que já fez parte?
Todos os eventos são importantes.

Entrevistamos um realizador radiofónico que nos disse o seguinte: “As salas de espectáculos estão mais localizadas na cidade de Luanda do que na periferia.” Partilha Desta opinião?
Sim. Isto tem acontecido. Existem muitos bons músicos, mas o facto de saberem que salas de espectáculos, estão mais na cidade do que na periferia, a deslocação complica-os muitos. Todavia, já encontramos algumas salas nas periferias, embora tenham poucas condições aceitáveis para se realizar eventos musicais.

Setenta por cento das músicas feitas pela nova geração estão no bom caminho, no género de que faço. A nova geração está a vir com uma nova forma de fazer música.

Qual é a casa de espectáculo onde o Larson toca frequentemente?
Não sou músico de tocar nas casas ou músico de bares. Se me quiserem ver a tocar é mais nos festivais, num concerto ou num programa televisivo. Sou um músico que pesquisa muito sobre a música, por isso, não tenho tempo de tocar em bares.

Como avalia o conteúdo musical feito pela nova geração?
Setenta por cento das músicas feitas pela nova geração estão no bom caminho, no género de que faço. A nova geração está a vir com uma nova forma de fazer música.

Então, discorda de alguns mais velhos que afirmam que a nova geração está compor músicas que incentivam os jovens a terem comportamentos desviantes?
Eu não tinha terminado de lhe responder. De modo geral, temos de ver alguns aspectos, por exemplo: não sou um instrumentista que participa no estilo de música Guetto Zook com frequência. Vejo jovens com novas energias, dinâmicas e com bons talentos. Por outro lado, temos músicas comercias (que têm como fim único a mercantilização) e música mais adulta (que têm como fim educar), como de André Mingas, Wladerimo Gonga etc. Estes estilos de músicas talvez sejam pouco consumidos pela nova geração.

Quais são estilos onde encontramos, com frequência, músicas comerciais?
Os estilos são Kizomba, Guetto Zouk angolanos, Kuduro, Afro-house. Os músicos da velha geração criticam com frequências estes estilos. Há música que faço que, normalmente é consumida pelos mais velhos. É música clássica que requer muita investigação da parte da pessoa que a faz. Porém, as músicas feitas por alguns jovens (comerciais) têm como objectivos, conseguir fama rápida. Estas músicas não agradam os ouvidos dos mais velhos, porque o conteúdo das mesmas se refere mais ao consumo de bebidas alcoólicas, mulher e consumismo desregrado.

Agora vamos falar mais sobre a sua carreira, tens um disco no mercado?
Não o tenho. Estou a referir como músico a solo.

Tens pretensão de gravar um disco?
Sim.

Porque o disco ainda não foi lançado?
O problema é financeiro, não tenho patrocínios dos meus projectos.

Recentemente, nas redes sociais, assistimos-lhe a fazer música, não apenas com os instrumentais, mas também com a voz. Pretende começar a fazer música dessa forma?
Sim. Isto se chama Skit, a ideia é mesmo essa. É uma combinação que faço com a guitarra.

Como é a relação entre instrumentistas da velha geração com a nova?
Temos poucos encontros ou eventos com os kotas que fazem com que nos unamos.

Ao longo da entrevista, te referiste que, em alguns casos, é falta de transmissão de conhecimento dos mais velhos para os mais novos. Para além dos encontros, isto continua sendo o factor principal?

Os mais velhos transmitam sempre. Temos uma relação muito boa, refiro-me nos estilos que toco, como afro-jaz ou bossa nova. Tudo que sei, agradeço aos kotas, por exemplo, o João Oliveira, tem sido um bom professor para mim. Filipe Mukenga, O kota Carlitos Vieira Dias, Carlos Lopes, Toni Nguxi etc. Ainda assim, penso que precisamos beber outras experiências.

 

“Todos os meus irmãos são músicos, meu pai era pastor de uma igreja. Comecei a ter contacto com a música na igreja, observando os adultos”

Fale-nos do teu percurso musical.
Venho de família de músicos. Todos os meus irmãos são músicos, meu pai era pastor de uma igreja. Comecei a ter contacto com a música na igreja, observando os adultos. Mas, não aprendi a tocar a guitarra na igreja. Desde pequeno, dizia a minha mãe, que brincava com o comando da TV. Fazia-o como se fosse uma guitarra, isto é, fingia que estava no palco. A partir dessa brincadeira comecei a ganhar o gosto pela guitarra, embora o pai não quisesse que fosse músico. Queria que eu me dedicasse mais ao estudo. Quando me davam o dinheiro para pagar a propina da escola, eu desvia-o para outro sítio. Ou seja, dava-o a um senhor para me ensinar a tocar guitarra, com o nome de Mestre Fisse. Depois, o Mestre convidou-me para frequentar a igreja que professa, o Ciloé. Assim, comecei a investigar mais sobre música porque o que fazia, tinha pouca qualidade. Assistia pela TV, músicos como os kota que tocavam guitarra André Mingas, Carlitos Vieira etc.

Essas pessoas que citaste são os teus ídolos?
São as pessoas em que comecei a inspirar-me. A paixão sobre a música profissional foi-se tornando mais presente em mim. Depois de algum tempo, voltei a gastar o dinheiro da propina escolar para uma escola de música que fica localizada no São Paulo. Conhecei o grande músico Blanchar que me ofereceu uma guitarra e um quarto para me hospedar. Foi ele que me fez conhecer outras escolas. Também me aconselhou a ouvir outros músicos renomados internacionalmente como Richard Bona, Lokua Kanza, George Benson, o pai do Blues.

Qual foi o momento em que se percebeu que podes tornar um músico profissional?
Comecei a me sentir quando consegui o meu primeiro certificado de música em 2013. Fiz esta formação com um professor alemão, que ensinou-me a ler as notas musicais.

Depois dessa formação, qual foi o primeiro evento que participou?
Não participei num evento, mas fiz parte da banda do Toni Nguxi. Por conseguinte, comecei a tocar em eventos. 

Quem é o Larson?
Sou o Divino Akawaco Lufungula, pertenço à família Bakongo. Filho de João Maria António Akawaco e de Emília Ngongo, nascido em Luanda, no dia 26 de Fevereiro.

De onde vem o nome Larson?
Larson é um nome artístico, foi atribuído pela minha professora de informática. Mas, para mim significa craque, por motivo de um jogador de futebol sueco que tem este nome.

Neste caso, quem lhe inspira?

A minha fonte de inspiração é a Natureza.

Estado civil?
Solteiro.

Formação académica?
Ensino médio. Estudei no colégio Cristo Saúde, no Cazenga.

Já tocaste num país estrangeiro?
Não.

Qual é o País que gostaria de tocar?
Penso que todos os países são bem-vindos. Mas, o país que gostaria de tocar é a República Democrática do Congo.

Por quê?
Tenho uma grande admiração pela música feita naquele país. O Congo é a origem de muito bons músicos africanos. A minha ideia é defender o africanismo. Posso actuar, por exemplo, nos Estados Unidos da América, mas tenho de levar sempre as músicas africanas para mostrar a África. É fazer com os músico de outros países possa vir a Angola, assistir a um espectáculo de Larson, porque não?!

O que gostaria de dizer que não lhe foi perguntado?
Minha fonte de inspiração. Que é Deus e a natureza.

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