Crítica literária, problema de todos – Gaspar Micolo

0
81
- Publicidade -

Tudo começou com o escritor e crítico literário Hélder Simbad que, numa rede social, revelou o que espera da crítica: “Quando se apresenta uma crítica sobre um livro é para se levar a comunidade literária à reflexão e não à humilhação pública do autor ou da obra sobre a qual recai a crítica. O único comentário válido, em literatura, é o comentário literário”.

É exactamente isso que se espera da crítica literária dedicada ao grande público. Sabe-se que hoje se tem como adquirido que o crítico literário é fundamental tanto para os autores como para os leitores; para estes últimos ainda mais importante porque serve de “desbravador” da selva de livros que chegam ao mercado. É o crítico que nos introduz um autor de boa qualidade que ainda não lemos.

É ele que nos guiará para a pertinência do seu conteúdo ou da sua linguagem. É o ofício de mediação entre uma linguagem e um entendimento.

Ora, na mesma rede social, o escritor José Eduardo Agualusa não tardou a responder: “A crítica literária não académica deveria dar ao leitor instrumentos para melhor ler o livro – apenas isso. Deve servir para iluminar o livro.

Infelizmente, a crítica literária para o grande público já quase não existe. Desapareceu com o colapso do jornalismo em papel”. É a mais pura verdade. E a culpa tem que ser repartida. Está a consolidar-se uma geração, da qual o Simbad faz parte, que se esmera na crítica literária académica, com propósitos bem firmes para o ofício; mas precisamos também de críticos para o grande público.

E, “mea culpa”, os jornais têm a obrigação de os dignificar, garantindo-lhes as avenças. Esse é o caminho inevitável. Mas também precisamos dizer que o “academicismo” pode estar a ser revelador da falta de talento para a crítica. Será que os críticos literários, que hoje se orgulham da sua linguagem académica, conseguem fazer a ponte entre a linguagem do escritor e o entendimento do grande público.

Eis a parte do problema que cabe aos ilustres doutores. Pois, não basta o ciclo formativo para termos a sensibilidade de perscrutar a obra e revelar a sua pertinência. O talento é importante!

_____ 
Gaspar Micolo é jornalista e director do único jornal público especializado em Cultura (Jornal Cultura, Ed 222).

Deixe o seu comentário
Artigo anteriorEnoque Lúcio em digressão pelo país
Próximo artigoPoder político aprisiona liberdade dos jornalistas – Fernando Guelengue

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui