Os mais velhos – Guigo Ribeiro

0
9
Ilustrações de um mais velho na visão do autor. Foto: Guigo Ribeiro
- Publicidade -

Seu João cuida de suas flores todos os dias. Mesmo horário, com chuva ou sol, lá está atento ao que cada pétala conta no silêncio. Sua dedicação é parte de um dia que se desenha na calma de quem entende o vento e seu pra quê e que pressa só se põe em parto. Seu João cuida de suas flores e dá suaves goles em seu café. Sabe que as flores não são só suas e que elas tornam todo o resto melhor.

Seu João chegou antes. Precisamente quando esse tudo era pouco e o mato foi tirado na ponta do facão. Precisamente quando foi necessário nome para o que então não tinha. Seu João veio antes. Bem antes. Tudo era mato e alguns chamavam o lugar de nada. Ou de canto. Alguns achavam bobagem. Outros também. Seu João viu traço e botou suor para pintar quadro futuro. Fez exposição.

Na rua que ele mora têm uns meninos que passam se empurrando, se xingando e rindo até o momento de passam por sua calçada. Lá não. Lá, em um olhar preciso e sem nenhuma palavra, diz aos miúdos sobre o respeito e a hora de cada coisa. Os meninos acatam de verdade, elogiando suas flores e o ajudando com a pá quando têm tempo.

No lugar que chegou quando tudo era nada, vive só e cercado de gerações preocupadas. Um bate em sua porta querendo chá e saber dele. Outro, querendo açúcar e saber da dor na coluna. Um lembra que fez o bolo que ele gosta muito. E que, passando por ali, resolveu deixar pedaço. Apaixonados colhem flores e Seu João sorri. Veio antes, lembra? Sabe bastante da vida. Conhece os encantos e mistérios do amor. Bem conhece os afagos dos corações que batem juntos.

-Vão fazer família e ter nenê!

Sereno, não erra nunca, indo os apaixonados tomar-lhe benção, plantas para um banho e caminhos para o aperto. Orienta data, hora, oração e preferências. E que o resto vai da fé de cada um. Segurando com suas graves mãos, oferece com delicadeza um café para que a prosa seja melhor. Tem toda calma para ouvir e entender tudo.

Sendo o mais velho por aquelas bandas, lembra com saudade os que com ele compunham a ala afinada dos vovôs e vovós. Lembra com saudade das e dos que conheceu e conviveu. Tantos outros que já nem estão mais pelas bandas. Lembra de dona Francisca que nunca deixou de querer bem os meninos da rua, mesmo quando eles faziam de seu portão um gol. Lembra de dona Dalva que enterrou o filho menino, mas não deixou de ensinar tantos outros meninos sobre a vida. Severa! Também dona Maria que, aos 90, detalhava suas histórias de menina, não sem se despedir de quem a escutava, prometendo sinceras orações pelos caminhos. De Silvio e como conseguia botar emoção em zagueiros tocando bola sem objetivo.

Seu João anda curvado pelo peso do tempo sem jamais ter se curvado a ninguém. Astuto, dedica longas tardes à observação do céu e suas respostas. As perguntas, faz o vento, diz. Vê o que cada momento e evento das horas conta, anotando em suas folhas/memória o que não se esquece por grudar na alma. Com seu banquinho, conta as nuvens em silêncio e antecipa sua retirada sabendo quando as gotas vão cair. Sorri. Elas iluminam as plantas. Sorri e aprecia o silêncio. Entende que a palavra é herança valiosa, apresentada mediante à necessidade, nunca à toa. Jamais à toa. A palavra é coisa sagrada, oriunda de um coração que a guarda. À toa é a palavra jogado ao nada, desperdiçada como fruta que não mata a fome, como homem que não entende a importância da fruta não desperdiçada. Seu João anda curvado sem jamais se curvar a nada. Seu João anda curvado, contudo nunca pelo peso da palavra.

Certa vez, em noite de lua brava, disse de repente aos presentes: aquieta que as coisas para chegar no lugar rodam desenfreadas. Como construção e a poeira. Disse que a calma é água doce e que nela se banha, se bebe, se faz fim da fome e que quase nada existe sem. Que a calma é água cristalina para se atirar convicto. Lá, sim, se vê o pé e que dá pé, assertivo nos fundamentos do saber propagado pela prosa em fogueira. Disse que o homem tem tempo, mas não tanto. Porque todo relógio começa e termina igual. E que todo ponteiro faz a volta e depois outra, e outra, parando igual. Que o homem tem tempo e gasta mal. E que o homem tem tempo para saber que tem tempo, entretanto que o tempo acaba e que as terras embaixo d’água são choro do tempo que vai indo. E que vestido de festa é para festa. O resto, boniteza desperdiçada. Quem ouviu, ouviu quieto e quieto ficou.

Os mais velhos sabem tanto. A gente, quem dera, chega lá. Os mais velhos entendem o que a gente chora por terem chorado. Sangrado. Feito o que parecia não ser possível. Os mais velhos sabem e aconselham. E a gente escuta atento, fazendo prece para nossa vez de saber tanto um dia chegar. Fazendo prece para nossa vez de ter a vida como, de fato, nossa. Assentada no colo e ninando canção que canta:

Lá vem a vida/Cante mais alto
Lá vem a vida / Cubra os pés no frio

Os mais velhos sabem tanto. Seu João, muito. Das coisas, sentidos. Coisas que escreveram e enricaram tempos depois fingindo ter criado. Seu João ensina. E a gente aprende. Quem quer, puder. Quem entende que aquele cabelo branco protege a cuca que guarda tanto e que suas mãos pretas desenham diariamente novas formas. Todo dia. Até a gente ter a sorte de desenhar também.

Deixe o seu comentário
Artigo anteriorLivro de Moisés Candumbo questiona futuro do Mussende
Próximo artigoMorreu o presidente do grupo Carnavalesco União Mundo da Ilha
Guigo Ribeiro
Guigo Ribeiro é um artista brasileiro fazedor de literatura, música e teatro que tem estado a liderar e apoiar pessoas com deficiência através da ptrática de teatro com o grupo Museatro.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui