Presidente da República nunca visitou Museus de Angola – Fernando Guelengue

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João Lourenço é o Presidente da República de Angola. Foto: DR
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Quando eu era pequeno, o meu mentor Pinto Guelengue, que ministrava aulas e treinamentos para adultos, jovens, adolescentes e crianças, nas variadas comunidades por onde passou, deixou claro aos meus irmãos mais velhos que “a qualidade de um ser humano é sempre mensurado pela sua sensibilidade às artes e aos pobres”.

É com base nessa máxima que decidi lembrar as palavras de um mestre que ao mesmo tempo tenho o prazer de chamá-lo de pai, o compatriota Pinto Guelengue Candumbu. O mesmo não se dá para alguém que tem um país na mão para governar.

Estou a falar do político e presidente da República João Lourenço, que terá sido enviado à Academia Superior Lénine de onde, para além da formação militar, terá regressado com o grau de Master em Ciências Históricas, durante apenas quatro anos, na então União Soviética, actual Rússia.

Desde que assumiu a posição mais importante de Angola, mesmo com orçamentos milionários para as dezenas de viagens internacionais e o suposto combate à corrupção, o político que se diz poliglota por falar inglês, português, russo e espanhol, ainda não terá realizado uma única visita pública a um dos museus existente em Angola, para constatar o nível de degradação destas importantes instituições que têm como foco, a preservação e difusão dos testemunhos materiais e imateriais da Cultura do Povo Angolano.

Durante o seu primeiro e provável único mandato, o general visitou vários países, conhecendo várias infraestruturas como fábricas de armas, indústrias de aviões, instituições marítimas e muitas outras instituições estrangeiras que a memória já não me mostra, torrando elevadas somas de dinheiro que podia ser investido na pesquisa, organização e divulgação da nossa cultura presente nos museus.

João Lourenço é um governante que, propositadamente e ao lado da sua turma do MPLA, vem criando cenários para destruir a verdadeira dimensão da nossa Cultura, para a manutenção do poder, através da desvalorização do acervo cultural de uma instituição criada para revelar a verdade da sociedade, através do registo dos vários cenários marcantes da história da nossa gente.

E o pior é que, durante o seu mandato que termina em menos de 8 meses, conforme o calendário eleitor, este representante do povo visitou dois museus internacionais, como é o caso do Qatar, em 2019, bem como, o Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana, nos Estado Unidos da América, em Setembro de 2021, altura em que aproveitou afirmar que aquela instituição era parte da nossa história comum! Aí está a febre de falar bonito lá fora…

Sem vergonha nenhuma e com muita coragem, teceu grandes e lindos discursos para o inglês ver e, possivelmente, para gerar algum retorno financeiro nas cooperações internacionais que nunca se revertem na vida dos artistas e demais angolanos!

No seu mandato, marcado por uma profunda crise interna e degradação da condição social dos angolanos, aproveitou condecorar alguns artistas, através de uma selecção que foi considerada por muitos artistas como sendo feita com critérios políticos, para gerar popularidades à sua degradante imagem e reputação política.

O vazio intelectual que o presidente João Lourenço e a sua equipa restrita e alargada apresentam, sempre é perceptível, quando olhamos nos conteúdos culturais e estratégicos nos seus discursos. A insensibilidade à pobreza de uma Nação com uma dimensão cultural elevadíssima e com a maioria qualificada de jovens criativos – cenário visível nas artes, que são exibidas nas redes sociais e nas plataformas de notícias internacionais, é a maior prova de que não conhece o povo que governa.

Com resiliência e fé;

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2 COMENTÁRIOS

  1. Almas pequenas não podem ter ideias grandes
    Há mais de dois mil anos, no reino de Ptolomeu II Filadelfo, foi construída um dos mais espetaculares centros de difusão da cultura de sua época, a afamada Biblioteca de Alexandria. Tinha aquele centro cultura a pretensão de possuir uma cópia de cada um dos livros produzidos pela humanidade até aquele momento. Com isso, culturas como a dos Egípcios antigos, dos persas, dos hebreus, dos chineses, dos hindus entre tantos outros estavam acessíveis a consulta de quem se dirigisse à Biblioteca de Alexandria. Guardando todas as devidas proporções nesta comparação e, ainda, ciente da possibilidade do anacronismo, creio que poder-se-ia dizer que era, em sua época, como a internet o é para a nossa.
    Fico a pensar que o fato de falarmos dessa Biblioteca até hoje, estando ela extinta há tempos, é diante de sua magnitude, não apenas em tamanho e acervo, mas na grandeza da ideia! Almas pequenas não podem ter ideias grandes. Isso porque as ideias se vestem com o tecido das almas. Sendo essas pequenas, espremerão as ideias grandes de modo a sufocá-las.
    Falo cá do Brasil e tenho de se sincero que não conheço intimamente o cotidiano político de Angola. Porém, é a segunda vez que leio artigos sobre o atual presidente desse país nos quais ele é apresentado como alguém que “NUNCA” foi a uma feira de livros ou a um Museu de Angola.
    Tristes notícias porque, em sendo verdadeiras, demonstram, no mínimo, o desinteresse pela própria memória de seu povo. Aqui no Brasil, todos devem saber, tivemos incêndios no Museu Nacional (em setembro de 2018) e na Cinemateca (em julho de 2021), ambos tendo como ponto em comum o descaso e a demora em aparelhar os prédios com os equipamentos de segurança necessários.
    A matéria publicada no Marimba Selutu sobre o atual presidente de Angola que nunca visitou um Museu do próprio país traz consigo uma preocupação enorme, pois, se não é uma tragédia nas proporções do que ocorreu no Brasil, não deixa, por outro lado, de carregar o mesmo gérmen que é o do desinteresse pela cultura, pela arte e pela memória que são matérias-primas que sustentam nações. Sem essas matérias, os países são apenas aglomerados de pessoas. A par disso, é importante lembrar que como seres humanos, nós carregamos a mesma constituição biológica e, por isso, as mesmas necessidades dela decorrentes. Ao lado da sustentação de nossa alma, há de caminhar a sustentação de nosso corpo físico. Precisamos, todos nós, de Pão e de Poesia. Poesia que sintetiza os valores de que falamos acima, quais sejam, a memória, a arte e a cultura.
    Abraços do irmão brasileiro aos irmãos angolanos,
    Carlos Carvalho Cavalheiro
    29.01.2022

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