Da memória histórica à continuidade da vida concreta.
Yaya, cidadão.
Vou ser sincero na minha interpretação. Não pretendo começar muito distante, nem procurar respostas em abstracções que nos afastem da realidade. Quero partir de um ponto concreto: 11 de Novembro de 1975, data da proclamação da Independência e do nascimento da República de Angola.
Muitos acontecimentos e interesses influenciaram esse momento histórico. Mas, para esta reflexão, prefiro partir do que é concreto e percorrer cinco décadas da nossa existência como Estado, procurando compreender o que construímos, o que superámos e o que ainda precisamos de realizar.
1975 – 1985 | A independência e a construção do Estado
Conquistámos a independência, definimos uma orientação política e ideológica e iniciámos a construção de uma República jovem, num contexto particularmente difícil.
A perda do primeiro Presidente, António Agostinho Neto, em 1979, não interrompeu a continuidade institucional. José Eduardo dos Santos assumiu a Presidência e o país prosseguiu o seu percurso.
Foi uma década de afirmação da soberania, de construção do Estado e de procura de estabilidade num território marcado por enormes desafios.
1985 – 1995 | Angola no centro de uma transformação geopolítica
A jovem República enfrentou uma guerra devastadora, intervenções militares externas e os efeitos da confrontação internacional da Guerra Fria. O território angolano tornou-se um dos espaços centrais de uma disputa cujas consequências ultrapassavam as nossas fronteiras.
Angola teve um papel relevante no contexto regional que envolveu a luta contra o apartheid, a independência da Namíbia e a libertação de Nelson Mandela, em 1990. Estes processos estiveram também relacionados com as transformações que conduziram ao fim da Guerra Fria, à queda do Muro de Berlim e à dissolução da União Soviética.
Em 1991, os Acordos de Bicesse abriram caminho ao multipartidarismo e às eleições gerais de 1992. O processo eleitoral não conduziu à paz esperada, e o país regressou a uma guerra devastadora.
Foi uma década que demonstrou a importância geopolítica de Angola, mas também o preço humano de um conflito que continuava a impedir a realização plena dos seus cidadãos.
1995 – 2005 | O fim da guerra e a conquista da paz
Esta década conduziu-nos ao encerramento de um dos capítulos mais dolorosos da nossa história.
Em 2002, terminou a guerra civil. As armas calaram-se, abriu-se um novo horizonte de paz e o país passou a enfrentar outro desafio: transformar o fim do conflito em condições efectivas de reconstrução, convivência e desenvolvimento.
A paz não resolveu automaticamente os problemas acumulados durante décadas. Criou, porém, uma condição fundamental para os enfrentarmos.
A partir daí, a questão deixou de ser apenas como sobreviver à guerra e passou a incluir como reconstruir o país e recuperar as condições necessárias à vida colectiva.
2005 – 2015 | A reconstrução e a integração global Angola entrou numa fase de reconstrução acelerada e de maior integração nos circuitos económicos internacionais.
O país procurou recuperar infra-estruturas, ampliar a sua capacidade económica e afirmar-se num mundo cada vez mais interdependente.
Mas a nossa inserção internacional ocorreu num contexto de desigualdades, dependências e vulnerabilidades próprias de uma economia fortemente ligada ao petróleo.
A reconstrução material era indispensável. Contudo, construir infra-estruturas não significava, por si só, resolver as dificuldades quotidianas de todos os cidadãos.
A integração global trouxe oportunidades, mas também expôs as fragilidades da nossa estrutura económica. Continuámos a enfrentar o desafio de converter os recursos nacionais em diversificação produtiva, oportunidades de trabalho e melhores condições de vida.
2015 – 2025 | A continuidade institucional e o reconhecimento da memória
Em 2017, Angola conheceu uma nova transição presidencial, com a entrada de João Manuel Gonçalves Lourenço na Presidência da República.
O país prosseguiu o seu percurso institucional e manteve a paz alcançada em 2002, procurando enfrentar dificuldades económicas e sociais que continuam a exigir respostas estruturais.
Neste período, ganha particular significado a valorização da memória nacional, incluindo o reconhecimento público de figuras e percursos históricos que, durante muito tempo, foram objecto de profundas divergências políticas.
As condecorações nacionais e a construção de espaços de memória associados às vítimas do conflito armado podem representar passos importantes na procura de reconhecimento histórico e de reconciliação.
A presença, no espaço da memória nacional, de António Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Malheiro Savimbi, figuras ligadas aos três principais movimentos de libertação, permite-nos reflectir sobre a possibilidade de reconhecer a complexidade da nossa história sem apagar as diferenças, os conflitos e o sofrimento que a marcaram.
Mas é necessário distinguir o reconhecimento simbólico da transformação efectiva da vida.
Uma condecoração pode reconhecer um contributo. Um monumento pode preservar uma memória. Uma cerimónia pode assinalar um momento histórico.
O desafio é fazer com que esse reconhecimento ultrapasse o espaço da cerimónia e encontre lugar na consciência, na educação, na cultura e na experiência quotidiana dos cidadãos.
2025–2035 | O desafio da Angola concreta. Entramos num novo horizonte histórico
Depois de décadas de independência, construção do Estado, guerra, paz, reconstrução e integração internacional, precisamos de colocar uma questão essencial: como traduzir este percurso numa melhoria concreta da vida de quem habita Angola?
O próximo ciclo de governação, independentemente de quem vier a assumir essa responsabilidade, terá de enfrentar esse desafio com pedagogia, clareza, organização e resultados verificáveis.
Não basta anunciar a transformação. É necessário criar condições para que ela seja vivida. Como fazer com que a água deixe de ser uma aflição diária?
O cidadão não deveria ter de começar cada manhã a pensar onde encontrará água para a família.
Como melhorar os transportes públicos para que a deslocação para o trabalho, a escola ou o hospital deixe de consumir uma parte desproporcionada do tempo e da energia das pessoas? Como garantir que os artistas, músicos, escritores, investigadores e criadores encontrem condições para produzir, publicar, apresentar e dar continuidade ao seu trabalho?
Como criar oportunidades para que os jovens desenvolvam os seus talentos nas comunidades onde vivem?
Como organizar a produção agrícola para que aquilo que o agricultor produz encontre condições de conservação, transporte, comercialização e escoamento?
Como aproximar os monumentos, os museus, as instituições de ensino e os espaços culturais das populações, de modo que a memória nacional não seja apenas visitada, mas compreendida e vivida?
Como recolher, interpretar e transformar as necessidades dos cidadãos em políticas públicas, projectos e serviços que respondam às realidades concretas de cada território?
Estas perguntas não exigem apenas discursos. Exigem instituições capazes de ouvir, planear, executar, avaliar e corrigir.
Exigem também que a participação do cidadão não seja reduzida ao momento eleitoral, mas encontre expressão na organização quotidiana da vida colectiva.
A água, os transportes, a educação, a cultura, a agricultura, a memória e o saneamento não são assuntos isolados. São dimensões interdependentes da mesma realidade humana.
Quando a Angola se evapora no cidadão.
É neste ponto que procuro compreender o sintoma que me inquieta.
Angola continua a existir como território, Estado, história e representação internacional. Mas uma parte dos cidadãos pode deixar de reconhecer, na sua experiência quotidiana, o país como um espaço efectivo de participação, realização e continuidade.
O cidadão olha para o percurso da independência, da paz e da reconstrução e pergunta-se: onde está, na minha vida, o resultado de tudo isso?
Onde estão os espaços para os nossos artistas?
Onde estão as oportunidades para os nossos jovens?
Onde está o acesso efectivo à cultura, à memória, ao trabalho e aos bens colectivos?
Quando o talento não encontra espaço, quando o trabalho não encontra continuidade, quando a memória não chega às comunidades e quando as necessidades quotidianas permanecem sem resposta, pode instalar-se uma distância entre o cidadão e o país.
É essa distância que procuro traduzir na expressão a evaporação da Angola no cidadão.
Não significa que Angola tenha desaparecido. Significa que o sentimento de pertença pode enfraquecer quando o cidadão deixa de encontrar, na realidade vivida, sinais concretos de que também participa na construção do país.
Uma nação não se sustenta apenas pela sua bandeira, pelos seus monumentos, pelas cerimónias oficiais ou pela presença dos seus representantes no mundo.
Sustenta-se também pela possibilidade de os seus cidadãos viverem, produzirem, criarem, participarem e reconhecerem a sua contribuição na continuidade da vida colectiva.
A memória não deve permanecer confinada ao museu. Deve encontrar expressão na educação, nas comunidades, nas famílias e nas relações entre gerações.
A cultura não deve existir apenas nos grandes palcos. Deve encontrar lugar nos municípios, nos bairros, nas escolas e nos espaços onde a vida acontece.
O desenvolvimento não deve ser medido apenas pelo que se inaugura, mas também pelo que passa a funcionar, pelo que se torna acessível e pelas oportunidades que permanecem depois da cerimónia.
A história precisa de se transformar em vida.
Não proponho que ignoremos o caminho percorrido. Pelo contrário, considero que devemos reconhecer a dimensão histórica dos sacrifícios, das conquistas e das dificuldades que marcaram estas cinco décadas.
Mas reconhecer o passado não significa dispensar o presente das suas responsabilidades.
A paz precisa de se traduzir em tranquilidade e oportunidades. A independência precisa de se traduzir em capacidade efectiva de realização. A memória precisa de se traduzir em conhecimento. A cultura precisa de se traduzir em expressão e continuidade. E a governação precisa de se traduzir em condições concretas de vida.
O desafio não pertence exclusivamente a um governo, a um partido, a uma instituição ou a uma geração. Mas cabe a cada governo assumir as responsabilidades correspondentes ao seu mandato, aos seus recursos e às necessidades da população.
Se conseguirmos aproximar as decisões da realidade dos cidadãos, organizar os recursos em função das necessidades concretas e criar condições para que cada pessoa reconheça o seu lugar na construção nacional, estaremos a dar um passo fundamental.
Porque o cidadão não deve ser apenas destinatário das decisões sobre Angola. Deve poder ser participante consciente na sua construção.
Se conseguirmos transformar a história em experiência vivida, o reconhecimento em oportunidade, a cultura em continuidade e a governação em respostas concretas, poderemos dizer que Angola está a reencontrar-se com os seus cidadãos.
E se esse reencontro se tornar uma realidade duradoura, então teremos dado um significado mais profundo à independência, à paz e à reconstrução. Angola não precisa apenas de continuar a existir como Estado. Precisa de continuar a fazer sentido na vida dos angolanos.
Tony Nguxi
MAHAMBA – Arquitectura Civilizacional do Humano Concreto.
Verdade para reconhecer.
Paz para acolher.
Tempo para transformar.
Lugar para continuar.

































