“A banda é o coração e sucesso do músico”, guitarrista Divino Larson

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Divino Larson é um músico e instrumentista angolano. Foto: Francisco Kachita
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Numa tarde de sol ardente e cansativa na avenida principal do Bairro Prenda, encontrámos, em sua residência, o guitarrista Divino Larson critica o comportamento de músicos que nos seus discos não divulgam os nomes dos instrumentistas que colocaram as suas impressões digitais.

Divino Akwaco Lufungula, nome de baptismo do artista, que teve o seu primeiro conctacto com música por meio da igreja, lamenta fortemente a fraca acção dos meios de comunicação social, principalmente os que possuem programas virados à música, por não divulgarem as actividades dos instrumentistas. Num esforço, remando contra maré, o guitarrista decidiu criar um projecto para dar maior visibilidade aos instrumentistas angolanos e a valorizar o seu talento.

Divino sente-se orgulhos por ter trabalhado com várias bandas, no entanto, apresenta-se como um músico freelancer, não esquecendo agradecer as experiências adquiridas dos mais velhos que lhe tornaram no músico que é.

Revela que todos os seus irmãos também são músicos, mas encontrou obstáculos por parte do pai, porque não queria que ele se dedicasse ao estudo da música, particularmente a guitarra.

De uma forma descontraída, Larson conta-nos que já desviou dinheiro da propina da escola para pagar aulas de música. A mãe sempre lhe disse que desde pequeno gostava de tocar guitarra, mas, por não ter o instrumento, usava o comando do televisor em compensação, imaginando-se em palco.

Pedro Muhongo

Sabemos que toca para vários artistas angolanos, mas está a criar o projecto “Instrumental com Amigos”. O que nos tem a dizer sobre este projecto?

“Instrumental com Amigos” é um projecto que idealizei há anos. Há vários instrumentistas, particularmente guitarristas, que apenas se limitam a acompanhar vários músicos. Depois se torna complicado produzir os seus projectos ou obras. Eu, como guitarrista, estou preocupado, porque há pessoas (instrumentistas) que gostam de produzir músicas africanas. Porém, no nosso mercado, existe uma carência de instrumentistas. Estas obras podem mostrar as tradições angolanas, podendo ainda fazer fusões com as outras culturas. Fui planeando este projecto que vai ser tocado com outros artistas.

Desde quando surgiu este projecto?
Surgiu apenas há um mês. Mas, já fiz participação noutros projectos.

“Os músicos não divulgam os que participaram nos seus projectos ou discos. Em várias músicas eles participam, mas na capa do disco finalizado, o seu nome não consta”

Afirmou que existe carência de instrumentistas em Angola. Pode dizer quais as causas?
A imprensa angolana, especializada em música, tem divulgado pouco os trabalhos dos instrumentistas. Existem muito bons instrumentistas que já têm trabalhos feitos, porém, são pouco divulgados. Os músicos não divulgam os que participaram nos seus projectos ou discos. Em várias músicas eles participam, mas na capa do disco finalizado, o seu nome não consta. Esta pouca divulgação faz com que poucos instrumentistas sejam conhecidos no mercado nacional. Assim, isto tem desanimado alguns e a encorajar outros a criarem os seus projectos. Mas, no meu caso, venho trabalhando para que eu supere estas situações.

Quantos amigos junta e com quais objectivos?
Nesta fase, estou a começar com apenas três artistas. Porque, o objectivo é de mostrar os ritmos da guitarra angolana, pois quando se fala da música angolana, os elementos a se terem em conta são a guitarra e a percussão. São elementos que dão origem à música angolana, por isso, trabalho com um baixista, um guitarrista e outro na percussão, por enquanto. Quando crescer ou apresentar um espectáculo maior, introduziremos um piano apenas para fazer a marimba. A ideia é mostrar a nossa cultura para os outros povos.

Este teu projecto é a solo?
Sim.

Pertences a uma banda musical?
Sim. Faço parte da banda Massemba Jazz. Nesta banda, temos a liberdade de experimentar diferentes fusões musicais, como Bossa Nova e Jazz. Mas, nunca pensei ser um músico para permanecer por muito tempo numa banda. Fui sempre um músico freelancer (independente), apesar de ter feito parte de algumas bandas nacionais. Nunca pensei estar fixo numa banda ou limitar-me numa. Mas, tenho acompanhado algumas.

Para além deste projecto, tens mais alguns?
De momento, não. Apenas estou focado no “Instrumental com Amigos”. Mas, não está a ser fácil. Tenho acompanhado alguns músicos em alguns trabalhos.

Disseste a pouco que já tocaste em algumas bandas, quais são?
São muitas. Deixa-me lembra… Vou começar com os mais conhecidos. Já trabalhei com Abel Dueré, um dos grandes músicos angolanos, residente no Brasil. Também já trabalhei com Filipe Mukenga, Anabela Aya, a Diva da música angolana de 2017; Wlademiro Gonga é um grande mestre. Ndaka Yo Wiñi, Adão Minjy, da Comunika Angola; Sandra Cordeiro, Carlos Lopes, etc.

Como avalia o desenvolvimento das bandas em Angola?
O desenvolvimento das bandas angolanas ainda não é da forma que esperávamos. Não está no patamar que a música angolana atingiu. Há um abrandamento das bandas, porque não existe um bom relacionamento entre elas. Quando se referem de banda em Angola, é com pouco valor. Enquanto, a banda é fundamental para actividade de um músico. Quem segura um músico é uma banda, ou seja, a banda é o coração do músico. Pensam que a banda é só dar-lhe dinheiro e ir para casa, mais nada! Enquanto a mesma é o suporte máximo. É na banda onde há o sucesso e a energia do músico.

Quando se fala da música em Angola, Pensa-se apenas nas pessoas que cantam. Esquecem-se de que a guitarra também canta”.

Acha que há má-fé por parte dos músicos quando não divulgam os instrumentistas?
Sim. Quando se fala da música em Angola, pensa-se apenas nas pessoas que cantam. Esquecem-se de que a guitarra também canta. Temos grandes músicos africanos como Francó, Richard Bona, nos Camarões e George Benson, que ganharam vários prémios, não cantando, mas pela guitarra. Neste caso e para alguns músicos, o mais importante é voz deles. Esquecem-se do resto. Depois de ganhar alguns prémios, por exemplo, fala da sua carreira, porém não divulga os outros músicos que foram suporte da sua carreira, ou seja, os instrumentistas. Lembro-me do Quintino, grande guitarrista que produziu 70% das músicas de Bangão. Muitos apenas se aperceberam isto após a morte de Bangão, por falta de divulgação. A música é a arte de combinações de sons. Há pessoas que numa música o que lhe comove mais, às vezes, é o som da guitarra do que a voz. Mas, não sebe se o som da guitarra foi tocado pelo Larson ou outro. Não há prémios para os instrumentistas em Angola.

Tens apoio para a realização desse projecto?
Sim, mas apoio psicológico. Por exemplo, de Vlademiro Gonga, aconselha-me muito; também o Ndaka e a Anabela. Todavia, outros tipos de apoios, não os tenho, de momento. Preciso muito de apoio financeiro.

Já solicitou em instituição ou mesmo no Ministério da Cultura?
Já tentei, mas não resultou. Dizem sempre: “vamos ver o que podemos fazer!”.

Fez parte da banda do Tony N’guxi, qual é a experiência que tiras em trabalhar com um músico como Nguxi?
É um dos poucos músicos angolano que é pouco divulgado e conhecido pela nova geração. Ele faz a diferença na música angolana. Já levou o nome do país em vários povos. Foi uma experiência muito boa, aprendi muito sobre a nossa cultura, como a Tchianda. Se notar, no meu projecto há música semelhante a este género musical. Foi muito bom trabalhar com a banda Zambeze.

Como avalias os preços dos instrumentos em Angola?
Os instrumentos musicais são muito caro e agravou-se ainda mais com a crise dos dólares. Está difícil e complicado conseguir um bom material em Angola.

Quanto custa uma guitarra, por exemplo?
Com 250 mil Kwanzas, compras uma boa guitarra. Mas os preços dos acessórios também continuam muitos alto. Por exemplo, no mês passado, tive um problema desses com a minha guitarra. Mas, levou muito tempo para conseguir uma peça de reposição, por causa do preço que estava muito elevado. Com situação cambial em Angola, temos pouco material no mercado. Comparando os preços dos acessórios e com o de uma nova guitarra, é preferível comprar a guitarra nova.

Chegou a realizar ou participaste num evento apenas com instrumentais?Sim. Isto foi em 2013, se não me engano, foi em Cacuaco, no restaurante Roseira e foi realizado por alguns amigos. Houve um festival no Epic Sana, realizado por Carlos Praia, um amante do Jazz. Outros eventos também são pouco divulgados e as pessoas ficam sem se aperceber.

A divulgação que se está a referir, os meios de comunicação social não é convidada para cobrir ou os organizadores não vão aos órgãos para divulgar os eventos?
Penso que falta apoio. Em Angola, ainda não estamos acostumados com esses tipos de eventos (com instrumentos). Precisamos do apoio dos meios de comunicação social, assim como dos patrocinadores e realizadores de eventos.

Como avalias a o estado da música angolana?
Os músicos angolanos estão mais preocupados com a fama do que o trabalho.

 “Setenta por cento dos músicos da nova geração fazem muito sucesso, mas as suas músicas não têm qualidade em relação a mensagem e a sonoridade”

Porque tens esta opinião?
Porque tenho visto vários artistas da nova geração que não têm paciência para fazer um bom trabalho. Estão mais preocupados com a fama do que compor música com qualidade. Setenta por cento dos músicos da nova geração fazem muito sucesso, mas as suas músicas não têm qualidade em relação a mensagem e a sonoridade. Actualmente, as músicas angolana parecem ser todas iguais, não notamos diferença, por exemplo, se virmos o Landrik ou outro músico, cantam da mesma forma. Mas, continuam a ganhar vários prémios. O sucesso desses músicos, normalmente, dura 5 meses ou 1 ano. Se virmos outros músicos internacionais, como o Michael Jackson, as músicas são duradouras porque têm boa sonoridade. As músicas são bem gravadas e as guitarras bem refinadas. No nosso País, os músicos vão aos estúdios mal preparados, até as guitarras podem estar desafinadas, ele não se preocupam com isto: o importante é tocar. Esta sonoridade tem afectado a qualidade musical das crianças. Há crianças com dom para tocar os instrumentos, porém, com esta situação, elas crescem com os ouvidos desafinados. Se virmos nos Estados Unidos da América, há crianças de 7 anos que cantam bem afinados nos concursos. Porque elas já são educadas a ouvirem músicas de boa qualidade. São poucos os artistas angolanos que fazem músicas de qualidade.

Na sua opinião, o que se deve fazer para resolver este problema?
A imprensa angolana tem de ter o cuidado na divulgação dos músicos. As gravadoras têm de se preocupar com a qualidade musical dos artistas, não apenas com os meios financeiros. Por exemplo, tenho visto alguns artistas, que no começo da carreira, começam a cantar bem. Mas, quando atingem o sucesso deixam de fazer músicas com a qualidade inicial: perdem a qualidade musical com o tempo.

Defendes que deve haver censura de algumas músicas por parte do Ministério da Cultura?
Pode não haver censura, mas que haja uma interligação com o Ministério. Tem de existir uma supervisão dessa Instituição. Conhecer mais os músicos e as bandas para que os ajude no seu desenvolvimento. Um músico sem orientação se perde.

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