Dia da Consciência Negra em Sorocaba – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Marcha para Zumbi e Dia da Consciência Negra em 2017 - Sorocaba. Fotografia de Carlos Carvalho Cavalheiro
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Possivelmente, os irmãos angolanos não conheçam profundamente a História de Zumbi, do Quilombo dos Palmares e de como se tornou representante da Consciência Negra no Brasil, cujo dia é celebrado em 20 de novembro como uma lembrança da data de sua morte ocorrida no ano de 1695.

Zumbi, o líder do Quilombo de Palmares, sempre foi um referencial de luta para o movimento negro no Brasil. Na década de 1930, a imprensa negra paulista, bem como organizações do movimento como a Frente Negra Brasileira, vez ou outra apresentaram o rei palmariano como exemplo de resistência à escravidão e, por consequência, à opressão imposta pelo racismo já nos tempos da liberdade formal.

Na década de 1960, os movimentos negros buscavam ampliar e, ao mesmo tempo, potencializar esse símbolo associando-o à Consciência Negra: consciência de luta, consciência de resistência, consciência do valor dos saberes e da cosmovisão herdada da África, consciência da estética e da beleza africanas.

É consenso que no ano de 1978 a data do Dia Nacional da Consciência Negra foi reivindicada pelo Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, associando-a ao dia 20 de Novembro (data que se acredita ter sido morto Zumbi dos Palmares) como um momento especial de reflexão sobre a luta pelos direitos dos afro-brasileiros.

Sorocaba, cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil, comemorou a data desde 1979, apesar dos percalços que os pioneiros tiveram de enfrentar. O professor Jorge Narciso de Mattos, liderança do movimento negro em Sorocaba à época, salientou que desde o início Sorocaba celebrou a data com seminários de estudos e eventos especiais (CRUZEIRO DO SUL, 20 nov 1984, p. 6). De acordo com um mural publicado na década de 1980, “É a primeira vez que assumimos esta data e o fazemos com ânimo definitivo, uma vez que a existência do Icab – Instituto de Cultura Afro-Brasileira – somente se justifica a  partir de uma posição que favoreça a conscientização do negro, ante o árduo caminho que vem percorrendo e deve continuar a fazê-lo, até que possa, (sem as detestáveis discriminações de que é alvo, tão só pelo fato de ser negro) ser livre”

Em 1983, o ICAB (Instituto de Cultura Afro-Brasileira), organização ligada ao Clube 28 de Setembro, promoveu uma palestra com o tema “Zumbi e a rebelião de Palmares”, proferida pela professora Ana Maria de Souza Mendes. Na ocasião, o presidente do ICAB, Bernardino Antônio Francisco manifestou-se dizendo: “Desde a escravidão o objetivo do negro sempre foi esbranquiçar. Porém, a partir do movimento negro, há mais de 20 anos, houve uma intensificação, que aumentou nos últimos 5 anos, do negro à procura de sua identidade, surgindo o Dia Nacional da Consciência Negra, em 1978, no momento em que o negro começa a se identificar como negro. Antes disso ele estava angustiado, mas hoje é o contrário, pois primeiro ele se vê como negro e depois com os outros fatores” (CRUZEIRO DO SUL, 20 nov 1983, p. 7).

Ainda assim, a data era desconhecida por muitos negros sorocabanos, mesmo quando do centenário da Abolição da escravidão, em 1988. Nesse ano, a comemoração do dia se restringiu a um Baile da Consciência Negra e a um desfile de trajes e penteados afros, ambos eventos ocorridos na sede do Clube 28 de Setembro (CRUZEIRO DO SUL, 19 nov 1988, p. 22).

Na década de 1990, a celebração do dia parece que se arrefeceu, embora o ânimo das lideranças negras ainda estivesse presente para a construção de projetos de valorização da História e da cultura de africanos e seus descendentes. Em 1994, por exemplo, o NUCAB – Núcleo de Cultura Afro-Brasileira (que substituiu o ICAB), já atrelado à Uniso (Universidade de Sorocaba), manifestou o desejo de realizar parcerias com outras instituições, como a Academia Sorocabana de Letras e a Fundec (Fundação de Desenvolvimento Cultural) para dar vida ao “Projeto Zumbi – Resgatando Memórias – A Cultura Negra em Sorocaba”. O projeto teria diversos desdobramentos, entre eles o da publicação do livro “Negros que fizeram a História”, com o escritor e pesquisador Geraldo Bonadio falando sobre o cururueiro João David; o professor Paulo Tortello falando sobre João de Camargo;  Bernardino Antônio Francisco escrevendo sobre Salerno das Neves; Sérgio Coelho de Oliveira descrevendo “as figuras pitorescas que envolvem a cultura de Sorocaba”; Jorge Narciso de Mattos discorrendo sobre a biografia de Luis Leopoldino Mascarenhas (MAIS CRUZEIRO, 20 nov 1994, p. 3). Aparentemente, o projeto não ocorreu.

Em 1994, a Igreja Metodista de Sorocaba, na Vila Leão, promoveu a comemoração do Dia da Consciência Negra com música, dança e palestra. O jornalista João Dias discorreu sobre a História e a Cultura do Povo Negro. O bailarino Maia Junior fez uma performance com trechos do poema “Navio Negreiro”, de Castro Alves. A parte musical ficou a cargo de dois corais: o Cantafro e Coral da Comunidade Evangélica de Sorocaba (CRUZEIRO DO SUL, 19 nov 1994, p. 19). A partir dessa época, a Igreja Metodista participou diversas vezes da comemoração do Dia da Consciência Negra.

Em 1996, por meio da lei Nº 5.218, de 25 de setembro de 1996 foi instituído em Sorocaba o “Dia da Consciência Negra”, por propositura do vereador João Francisco de Andrade.

Em 2003 foi  promulgada a Lei Federal 10639/03, que alterava alguns artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), sendo que a nova redação do art. 79 B dizia que “o calendário escolar incluirá o dia 20 de Novembro como Dia Nacional da Consciência Negra”.

Esse fato reascendeu o ânimo e os debates em torno da Consciência Negra. Em 2005, o Sindicato dos Metalúrgicos e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) realizaram homenagens a personalidades pela passagem do Dia da Consciência Negra, em Votorantim e em Boituva. Em Sorocaba ocorreu uma missa na Igreja de São Benedito (CRUZEIRO DO SUL, 21 nov 2005, p. A 6). Nesse ano e no ano seguinte, escolas públicas (especialmente estaduais) de Sorocaba começam a apresentar projetos de exposições e debates sobre o Dia da Consciência Negra.

Uma das primeiras professoras a realizar esse trabalho foi Maria Luiza Gáspari, da escola estadual “José Quevedo”, do Cajurú.

Em 2007, a partir da propositura do vereador Raul Marcelo, o dia 20 de Novembro passou a ser feriado municipal do “Dia da Consciência Negra”. A lei Nº 8.120, DE 2 de Abril de 2007 instituiu, em seu artigo primeiro, o feriado. Logo ocorreram manifestações contrárias, afirmando que um novo feriado iria prejudicar o comércio e a economia local.

A resistência se fez presente e em 2008 ocorreu a comemoração do primeiro feriado da Consciência Negra, com celebrações diversas e culminando num encontro na Igreja de João de Camargo, líder histórico negro de Sorocaba. No tocante a manutenção dessa tradição, reconhecendo o trabalho coletivo de diversas personalidades e lideranças negras de Sorocaba, destaca-se a figura de Rosângela Alves, que por muitos anos levou à frente a organização dessa celebração na capela de Nhô João de Camargo, líder comunitário e religioso que criou uma territorialidade negra em Sorocaba no início do século XX. João de Camargo faleceu em 28 de setembro de 1942.

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Carlos Carvalho Cavalheiro é Mestre em Educação (UFSCar), Licenciado em História e Pedagogia Bacharel em Teologia, Especialista em Metodologia do Ensino de História e em Gestão Ambiental e Historiador brasileiro registrado no ME sob nº 317/SP.

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1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns ao Historiador Carlos Cavalheiro pelo sua dedicação e profissionalismo, não deixando no esquecimento pessoas que transformaram a vida e construiram uma nova história do povo preto na cidade e Sorocaba e Região.

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