A sua vida pode ser documentada. O seu trabalho profissional, para além de inspirador e fora do comum, molda a compreensão da verdadeira dimensão do talento de jovens que hoje se tornaram modelos para uma sociedade ávida pelo desenvolvimento.

A sua história começa por meio de uma paixão de dois jovens proveniente de lugares diferentes do país. Um saiu da província do Zaire, Soyo e outro da cidade conhecida como Nova Lisboa, Huambo, centro de Angola. Mas Luanda foi o ponto de partida e porto seguro que marcou a história de quem hoje se tornou num jovem que transforma o meio por intermédio de uma máquina fotográfica, criada pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, homem que conseguiu fazer a primeira fotografia da História, em 1827.

A sua mãe, originária do Soyo, era conhecida como Filomena Maria das Neves Máquina que, apesar de perder a vida por doença, em 2013, era uma mulher determinada que exercia actividades de restaurante na zona da baixa da cidade de Luanda.

Ainda muito jovem, aos 15 anos de idade, num namoro com o actor que dividia a sua vida entre Luanda e a República Checa, o senhor Paulo Reis Máquina, Filomena concebe pela primeira vez de Drálton Bráulio Máquina, altura em que o seu parceiro encontrava-se com apenas 19 anos de idade.

Drálton Máquina é um fotógragro angolano. Foto: DR

Pela dinâmica da vida dos seus pais, o jovem viu-se obrigado a viver com o seu avô materno, que passou a representar a figura paterna ao longos de vários anos até o momento em que se tornou um verdadeiro Homem. “Não vivi muito com a minha mãe porque ela tinha outra família e tive de viver com o meu avô materno. Ele foi quem pagou toda a minha formação. O meu avô tratava-me como filho e eu como pai. Ele é quem responsabilizou-se pelo pagamento de propinas até o ensino básico”, são palavras do jovem, reveladas de forma emocionantes.

Depois de nascer, a minha mãe contou que só o vi pela primeira vez aos 5 anos. Foi tudo rápido e regressou

A ausência de uma ligação afectiva profunda entre Drálton e o seu pai deveu-se, como conta, ao facto do pai emigrar à República Checa desde que o pequeno tinha apenas 3 meses de vida, fase crucial do desenvolvimento de uma criança. “Depois de nascer, a minha mãe contou que só o vi pela primeira vez aos 5 anos. Foi tudo rápido e regressou”, frisou o fotógrafo, acrescentando que o seu trabalho actual tem merecido reconhecimento da parte do seu progenitor.

Embora terminando a sua formação no nível médio pelas escolas 3007, Macarenco, Mutu Ya Kevela, Colégio Betânea, Bom Sucesso e na 4 de Janeiro, o jovem traz à tona todas as paixões que o guiavam até ser descoberto pelo seu primo que o aconselhou a seguir a área de fotografia. “Se não fosse fotógrafo seria um engenheiro informático porque sempre brinquei com computadores, futebol e jogos”, fez saber.

COMEÇO DAS COISAS

O menino da rua Roberto Silva, na Rainha Ginga, conheceu o mundo dos vivos no dia 28 de Abril de 1993. A sua história, de uma vida sofrida, começa a se consolidar aos 22 anos, quando ganhou o hábito de ver fotos e observar as que eram feitas pelo seu amigo Cláudio Tâmbue, que teve de parar de estudar para se dedicar à profissão.

Para descobrir que tinha algum talento precisou ganhar a coragem de pegar numa máquina para fotografar, para minutos depois receber elogios do seu primo Daniel, que o aconselhou também a continuar nesta paixão.

Os traços hereditários da sua mãe, na área de restaurantes, tiveram alguma força na vida do jovem, pois a sua primeira actividade profissional era numa roulotte onde atendeu bebidas durante dois anos, tornando-se num profissional reconhecido.

O atendimento não era sua paixão principal porque assim que recebeu o convite de Maradona, amigo do seu pai que estava a chegar ao País, vindo de Londres, aceitou sem olhar para atrás e nem no salário de 15 mil kwanzas, que auferia todos os meses naquele estabelecimento. “Com ele comecei a aprender sobre fotografia, mais concretamente as técnicas de câmara. Aprendi, para além dos três passos básicos para uma boa fotografia, que são o Iso, Diafragma e o Obturador, as técnicas de iluminação.”, recordou Drálton Máquina, sustentando que meses mais tarde começou a ganhar um salário de mais de 30 mil kwanzas na sua nova actividade.

O CONTRATO QUE MUDOU A SUA VIDA

O chefe, como ele trata o Maradona, criou um projecto de imagens no qual produzia um filme intitulado “Dias Santana”, depois de ter regressado de Londres, Inglaterra.

Ao longo de dois anos de trabalho na dinâmica cultural e profissional em Luanda, Maradona consegue um contrato que marcou a vida de muitos jovens da cidade capital. Trata-se do acordo com a Fundação Sindika Dokolo para o registo de imagens da IIIª Trienal de Luanda, projecto desenhado pelo artista plástico e curador Fernando Alvim e idealizado pelo arquiteto e músico angolano André Mingas.

Segundo Drálton Máquina, quando entrou neste projecto apenas tinha noção da técnica e do botão da máquina, o disparador. “Foi dentro da IIIª Trienal de Luanda, que é um ciclo de movimento cultural, com Fernando Alvim e a Cláudia Veiga, que fomos tendo outra visão sobre a imagem. Até sabíamos que a foto diz sempre qualquer coisa, que a foto fala. Mas aprendemos que as fotos têm poesias através da Fundação”, mencionou.

Os primeiros meses de trabalho neste que foi um projecto cultural que marcou a vida de centenas artistas e amantes da cultura angolana, contou com o acompanhamento rigoroso de Cláudia Veiga, uma profissional cultural que tem formações em fotografia. “Esta rigorosidade ajudou a construir o fotógrafo que sou hoje. Também trabalhamos muito em ambientes escuros, um conceito da Fundação e da IIIª Trienal de Luanda, que nos ajudou a perceber de forma mais aprofundada sobre fotografia”, sustentou, reconhecendo que bastaram apenas seis meses, no interior daquele movimento cultural, para que aquilo que sabia sobre imagem fosse completamente alterado.

Drálton com a equipa da Fundação Sindika Dokolo. Foto: Divulgação

O fotógrafo reconheceu igualmente que o Palácio de Ferro, através da Trienal de Luanda, permitiu ter acesso à Cultura nas suas mais variadas disciplinas. “Tantos concertos e espectáculos teatrais. Poesias e actividades de solidariedade de forma muito corrida. Até que chegou um momento em que comecei a pensar na posição certa para fazer a foto perfeita.”, explicou.

CERCA DE 2 MIL TRABALHOS

Os dados do balanço daquilo que foi a IIIª Trienal de Luanda, disponibilizados ao público por meios dos mais variados canais de comunicação da Fundação Sindika Dokolo, cruzam-se com o número de trabalhos desenvolvidos por Drálton, acrescido os eventos que ocorreram à porta fechada. “Na minha análise, penso que já devo ter fotografado mais de 1.200 artistas. O número da IIIª Trienal de Luanda sempre vai coincidir com o meu trabalho”, esclareceu o artista, acrescentando entre os seus trabalhos há sempre um que marca, mas usa o método segundo a qual, todos os dias tem uma surpresa.

“Na verdade, há sempre uma que marca. Mas todos os dias tem uma que supera. Há melhor dia. Mas as fotos que marcaram e não saem da minha cabeça são muitas que tenho feito para uma colecção futura”, disse.

Jorge Rosa e Ndaka Yo Wiñi são dois artistas consagrados que deram algum impulso ao desenvolvimento profissional do jovem por meio permitirem trabalhar juntos fora do conceito da Trienal de Luanda. “Fora nos permitiu desenvolver tudo que fomos aprendendo lá e sem a presença dos nossos líderes. Foi por à prova os conhecimentos adquiridos no Palácio de Ferro”, sustentou, manifestando que sempre deve ser escolhido o que fotografar.

O jovem, que deseja se juntar mais com os profissionais da classe por sentir menos associado, acredita que um bom fotógrafo faz sempre uma foto bonita. Ou seja, o fotógrafo faz foto de qualquer coisa, mas o bom fotógrafo faz bonito qualquer coisa.

Actualmente, o Drálton Máquina está mais focado em melhorar a sua visão artística com trabalhos fora do ambiente cultural com trabalhos mais ligados à paisagens das províncias do interior do país, animais e outras.

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