A lógica da colonização e a colonialidade – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Retrato de um artigo que ilustra um pioneiro da civilização. Foto: DR
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Brasil e Angola possuem uma história que se assemelha em alguns aspectos. O que mais aproxima a história desses dois países é o fato de terem sido colonizados pelos portugueses. Assim, um pouco das consequências desse processo ainda subsistem em vestígios da pretensa superioridade dos europeus sobre os americanos e africanos.

A nossa mentalidade ainda carrega esses referenciais. É o que costumamos chamar atualmente de colonialidade, ou seja, a permanência da relação da lógica colonial entre os saberes produzidos e os diferentes modos de vida. Não faz quatro anos que o inominável ex-presidente do Brasil afirmou que os indígenas estavam se tornando “humanos como nós”!

Essa frase, carregada de preconceito, remonta à época da colonização, quando os portugueses (europeus) chegaram a discutir se os indígenas do Brasil eram mesmo seres humanos ou outra espécie de animal. O que se deve atentar aqui é que todo processo de colonização foi uma ação de expropriação, de exploração que, para ser eficaz, tornou o “outro” como não-pessoa.

Os europeus, então, se espalharam pelo globo terrestre para levar a “civilização” aos outros povos, tidos como atrasados e selvagens. É a mesma lógica que levou os antigos romanos a considerar os outros povos como “bárbaros”.

Uma notícia colhida em um jornal de Sorocaba, cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil, traduz exatamente essa mentalidade colonizadora, desde o título da matéria e permeando todo o corpo do texto. Publicada em 27 de julho de 1913, no jornal Cruzeiro do Sul, a nota jornalística tem como título o seguinte: “Um pioneiro da civilização”.  

Trata-se do relato de parte da história do padre José Severino da Silva, missionário da Congregação do Espírito Santo, que estava retornando ao Brasil depois de uma longa temporada na África, ou, como diz o texto, “dos sertões africanos”.

De acordo com essa publicação, o missionário permaneceu por vinte e cinco anos “nos sertões da África Ocidental em serviço de catequese dos gentios que habitam os sertões das possessões portuguesas na África”. A repetição da palavra “sertão” já demonstra a conotação dada ao imaginário construído sobre os povos africanos. São habitantes de lugares distantes, isolados, sem contato com a “civilização”.  Essa perspectiva fica mais evidente no decorrer do texto: “Durante a sua longa permanência nessas regiões, fundou muitas igrejas, escolas e outras instituições que levaram a religião e o ensino da língua portuguesa a esses gentios, verdadeiros selvagens que por fim, se submetiam, aceitando a catequese que os tornava úteis à humanidade e a Portugal”.

Ora, os africanos, portanto, só se tornariam “civilizados” quando aprendessem a língua e a religião dos colonizadores europeus! A partir disso, seriam “úteis” para a humanidade e para Portugal. Essa é a lógica da colonização. Observe que no texto, ainda, se coloca o termo “submeter”, que é a prática que, de fato, fazia parte do planejamento das empresas colonizadoras, qual seja, a submissão dos povos.

E por quais lugares andou o missionário José Pereira da Silva? Missões de Gambos, Tipungiro, Monpino, Kiluta, Kumbe, Huilla, Tylhepepe, em Angola.

Para realizar a sua missão com mais eficácia, o padre José Severino organizou uma gramática e um guia de conversação das línguas olumyakeca, falada em Moçambique, e portuguesa. Desse modo, agiu como os antigos jesuítas que estiveram no Brasil no serviço de catequese e conversão dos indígenas brasileiros. A estratégia era a mesma em ambos os casos.

O texto do jornal ainda discorre sobre o “exercício de sua proveitosa e caridosa missão” para o novo regime de Portugal. Com a palavra caridosa, o discurso do texto quer insinuar que a missão do padre era “civilizatória”, ou seja, que tinha como alvo maior tirar os povos do atraso da barbárie e levá-los para os auspícios da civilização. Ainda assim, o governo português expulsou a Congregação do padre Severino das terras portuguesas, incluindo suas possessões africanas.

Curiosamente, José Severino da Silva, então um jovem com 44 anos de idade, era brasileiro e, mesmo assim, acreditava na ideologia da colonização. Em sua visão de mundo, o padre mantinha a colonialidade como uma perspectiva de civilização, hierarquizando saberes e modos de vida, propondo a extinção de tudo o que não fosse de origem europeia. Um brasileiro cujo país sofreu com a colonização, não conseguiu romper com a lógica da colonialidade.

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