O boi nas nossas tradições – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Boi Fervor de 1980 na cidade de Porto Feliz, cidade brasileira. Foto: DR
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O animal bovino é tido, em muitas culturas, como um ser divino. Está presente nas tradições egípcias com o Touro Ápis, associado ao mito grego do deus de Dioníso, citado na Bíblia como ídolo a quem os hebreus renderam culto enquanto Moisés falava com Deus do alto de uma montanha. Também entre os hindus o gado vacum é sagrado e o ritual dedicado ao deus Mitra dos romanos exigia o sacrifício de um boi.

No culto a Dioniso (Baco), por exemplo, no momento em que um bezerro era ritualmente calçado com botas de caçador “semelhantes ás que o deus frequentemente usava, e sacrificavam-no em lugar de uma criança – que não era outra senão o menino Dioniso”, conforme atesta Carl Kerényi em extenso trabalho publicado sobre o mito, intitulado “Dioniso – Imagem arquetípica da vida indestrutível”. Interessante é que o nome Dioniso significa renascido. O ritual de sacrifício ao boi tem, portanto, uma relação com a ideia de ressurreição.

Mas o Touro representa também força, virilidade, fertilidade, combate e obstinação. Entre povos africanos também se encontram tradições ritualísticas e de divinização do boi ou touro. Josivaldo Pires de Oliveira, Professor Adjunto de História da África do Colegiado de História da UNEB/Campus XIII – Itaberaba, Brasil, afirma que dentre os ritos e celebrações  tradicionais dos  povos  pastores do Sul de Angola, observados pelo padre missionário Carlos  Estermann,  da  Congregação  do  Espírito Santo, entre  os anos de 1925 e  1976, destacam-se as “danças  rituais no cotidiano dos pastores no âmbito dos ritos de puberdade e celebração do boi sagrado entre os povos Nhaneca-Humbe”.[1]

A deusa egípcia Hator, esposa de Hórus, ambas divindades do céu, era comumente representada como uma vaca. Em sua representação antropomórfica, era retratada com um adorno na cabeça representando chifres bovinos.

Aires da Mata Machado Filho, em sua obra “O negro e o garimpo em Minas Gerais”, alude à sobrevivência de tradições totêmicas sudanesas e bantos relacionadas ao boi. Citando o pesquisador Artur Ramos, o autor traz a curiosa informação a seguir: “O totemismo do boi é largamente disseminado entre vários povos bantos, onde, em algumas tribos, toma um aspecto francamente religioso. Os Ba-Naneca têm uma cerimônia especial por ocasião das colheitas, quando prestam um verdadeiro culto a um boi que chamam de Geroa. Este boi é conduzido processionalmente nesses dias, e festejado com cânticos e certos instrumentos especiais a ele consagrados” (1964, p. 53).

Valter Roberto Silvério, editor da publicação “História Geral da África”, síntese da coleção, publicada pela UNESCO/Brasil, MEC Brasil e UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), ao discorrer sobre os padrões de culturas negras no Brasil, informa que os bantos, enviados principalmente no Estado do Rio de Janeiro e no de Minas Gerais, desenvolveram celebrações e festas, dentre elas, as dedicadas aos bois (2013, p. 13).

Em São Paulo essas tradições também tiveram a sua versão. Aliás, as tradições dos bois estão presentes em praticamente todas as regiões do Brasil, como a do Boi de Mamão (região sul), o Boi de Reis e Bumba-Meu-Boi (Nordeste), o Boi-Bumbá (Norte) e os Boizinhos de Carnaval (Sudeste).

Desses últimos, a região Metropolitana de Sorocaba – e, mais precisamente, a região geo-cultural do Médio Tietê – apresenta diversos vestígios da presença desses bois (que são representações em armações de bambu cobertas com tecidos) em diversas cidades como Pereiras, Itu, Tietê e Porto Feliz.

Francisco Nardy Filho relata como uma tradição ligada aos negros da cidade de Itu o boizinho. Mas, para ele, esse boi está relacionado à festa religiosa. Diz o historiador que nas festas de São Benedito e também no carnaval o boizinho tinha a sua participação.  Em Porto Feliz, havia um maestro negro, no século XIX, chamado Benedito Pais Arruda (se não me engano) e que levou essa tradição a Tatuí, de onde se originou depois o Cordão dos Bichos, famoso até hoje.

Relata ainda esse historiador que o “boizinho pulava, dançava, investia, adoecia, deitava-se; vinha o doutor, curava-o e punha-se ele de novo a pular, a dançar e a investir; e tudo isso acompanhado de cantigas ao som das violas, pandeiros, caixas e zabumbas. Assim se divertiam aqueles bons pretos…”.[2]

Esse é um relato bastante esclarecedor porquanto demonstra que a tradição do boi na região do Médio Tietê guarda alguma semelhança com outras tradições, como a do Bumba-Meu-Boi, induzindo a crença de que tenham uma origem comum.

Em Porto Feliz, de acordo com Ivan Sampaio, houve na década de 1960 o “Boizinho do Tedéu”, uma brincadeira de carnaval em que os brincantes se fantasiavam de boi e investiam em marradas contra o povo que assistia nas ruas. Aparentemente, apesar da armação de bambu e tecido, a cabeça do boi era feita com o crâneo de uma res abatida em matadouro. Na década de 1980 existiu, também em Porto Feliz, o Boi Fervor.

Ao que consta essa tradição existiu até o final da década de 1990 ou início dos anos 2000. Poderia ser reavivada, uma vez que muitos dos que participaram das brincadeiras do Boi em Porto Feliz ainda vivem e guardam em suas memórias essa reminiscência ancestral que caminhou pelo mundo todo, desde a Antiguidade, e aportou aqui no Brasil para nos dizer que não somos um acaso, se não um encontro saudável de culturas.

[1] ETNOGRAFIAS MISSIONÁRIAS NO SUL DE ANGOLA: DANÇAS RITUAIS E CELEBRAÇÃO DO BOI SAGRADO NA ESCRITA DO PADRE CARLOS ESTERMANN. Disponível em: Vista do ETNOGRAFIAS MISSIONÁRIAS NO SUL DE ANGOLA (ufam.edu.br). Acesso: 16 maio 2022

[2] NARDY FILHO, F. A cidade de Itu. Itu:Ottoni, 2000, p. 207.

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Carlos Carvalho Cavalheiro é Mestre em Educação (UFSCar), Licenciado em História e Pedagogia Bacharel em Teologia, Especialista em Metodologia do Ensino de História e em Gestão Ambiental e Historiador brasileiro registrado no ME sob nº 317/SP.

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