Reencontro na luz eterna em homenagem a Ruy Mingas (crónica/Ficção) — António Paulo

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No recato da “Preta Luz”, Waldemar Bastos cantarola “Sofrimento”: “Pra quê tanta dor? / Pra quê tanto ódio? / Se somos irmãos / Que temos que dar as mãos (…) Olha o tormento / Que vem cá de dentro…” Absorto na melodia, Waldemar Bastos não vê chegar Ruy Mingas que prefere não incomodar o canto.

– Ruy, tu aqui? — questiona, atónito, Waldemar Bastos, embaraçado pela coincidência entre o canto e a pessoa que acaba de ver.
– Javé deixou-me algum tempo em lista de espera. Passava o tempo a orar. Também fazia composições, mas mentalmente apenas: não escrevia nada em papel ou pautas. Uma ou outra vez conversava com os “Meninos do Huambo” — responde Ruy Mingas, em tom cordial. Veste uma camisa preta, como em (na capa de) “Memórias”. Conserva o porte atlético dos tempos do atletismo e a barba de algodão. O contraste (entre o preto da camisa e branco da barba) acentua-lhe o charme.
– Ruy, almoças connosco no domingo (!?) — diz Teta Lando, enquanto estende uma taça de vinho ao recém-chegado, num tom para causar dúvida entre a pergunta e a afirmação. Teta Lando mantém-se jovial, esboçando o mesmo sorriso (da capa) de “Esperanças Idosas”, com o bigode e a mosca ainda naturalmente pretos.
– Almoçar no domingo? — pergunta Ruy, ainda não refeito da mudança de fuso horário, e tentando conciliar aquele convite/notificação com os planos de reservar o domingo para rever a família: André Mingas, Liceu Vieira Dias e Lourdes Van-Dúnem, nessa ordem ou todos juntos.
– “Domingo vou fazer um funge / Como fazia aquele velho na sanzala” — responde Teta Lando, trauteando e soltando um sorriso de quem esconde uma surpresa.
Ruy Mingas devolve o sorriso amigo e, sem ter tempo de responder, ouve uma voz familiar. É André Mingas.
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Jurista, Docente Universitário e sub-editor de Cultura do Jornal de Angola nos anos 90.

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