Comércio entre as colônias do Brasil e Angola – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Mapa do comércio triangular. Fonte: Wikipedia
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Há um senso comum no Brasil de que o comércio realizado entre esse país e as antigas colônias de Portugal estivesse relacionado apenas ao tráfico negreiro, ou seja, o transporte de pessoas submetidas à execrável indústria da escravidão.

Os livros didáticos, por exemplo, em geral apresentam uma representação daquilo que ficou conhecido como comércio triangular (porque envolvia três continentes, a saber: África, América e Europa) que reforça essa ideia e, ainda, a de que o continente africano recebia mercadorias somente dos países europeus. A representação gráfica que comumente aparece nas explicações sobre o comércio triangular indica apenas um sentido de direção. Da América, sairiam navios abarrotados com produtos tropicais diretamente para a Europa. Desse continente, seguiriam os produtos manufaturados (incluindo o rum) para a África, produtos esses que seriam trocados por seres humanos escravizados que seguiriam para a América fechando o triângulo comercial.

Aparentemente, não haveria – ou não deveria haver – comércio entre as colônias a não ser esse do envio de africanos escravizados para a América. No caso das colônias portuguesas, principalmente de Angola e Moçambique para o Brasil. Isso seguiria a lógica do Pacto Colonial (ou Exclusivo Comercial), acordo pelo qual as colônias só poderiam comercializar diretamente com suas respectivas metrópoles europeias.

Um periódico português do século XVIII, demonstra que, de fato, Portugal controlava o comércio com suas colônias do Brasil e de Angola. Algumas edições desse periódico pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, localizada na cidade do Rio de Janeiro. Esse e outros jornais dos séculos passados foram digitalizados e disponibilizados para consulta gratuita pela internet. Basta acessar o sítio https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

A publicação em questão é o “Hebdomadário Lisbonense”. Na edição número 28, do ano de 1763, há a notícia de um navio saindo do Porto de Lisboa em agosto daquele ano rumo a Angola levando “fazendas”, termo que pode se referir a tecidos ou mercadorias diversas para venda. Essa notícia se coaduna com o que se tem de ideia em relação ao comércio triangular: Portugal (país europeu) encaminha produtos manufaturados para sua colônia na África.

Em 1766, num Suplemento ao Hebdomadário, datado de 22 de julho (edição número 3), publicou-se uma relação de navios que sairão do “Rio desta cidade” (de Lisboa) e um deles teve como destino Angola, levando, novamente, fazendas.

No número 7 do referido Suplemento, datado de 19 de agosto de 1766, há a notícia do navio “O Senhor dos Navegantes”, capitaneado por Antônio de Pontes, que teria saído para Angola levando sal e fazendas. No ano seguinte, o Navio Nossa Senhora da Conceição, Santana e Almas seguiu de Portugal para Angola tendo como capitão de mar Manoel de Freitas Silva Guimaraens. Até aqui, segue o que se tem de ideia sobre o comércio triangular. Dentro desse entendimento, Angola deveria fornecer a mão de obra escravizada para a América.

No entanto, de acordo com Maximiliano Mac Menz, “Angola não exportava apenas pessoas: marfim e cera eram mercadorias preferidas pelas embarcações que retornavam diretamente para a metrópole e compunham 12% das exportações de Luanda entre 1785 a 1794” (MENZ, 2012, p. 194).            Possivelmente, então, dentro desse comércio triangular, Angola exportava para a Europa a cera e marfim (talvez outros produtos), contradizendo o senso comum de que os países africanos apenas enviavam escravizados para a América. Nesse sentido, é possível se pensar na possibilidade de existência, mesmo que clandestinamente, de um comércio entre as colônias. De fato, essa possibilidade não somente é apontada como afirmada por ALFAGALI et al (2020, p. 887):

“Assim, o comércio intracolonial entre Angola e América portuguesa foi facilitado tanto pelas condições naturais quanto pelos produtos que favoreciam essa interação, como a jeribita e a mandioca. A situação geográfica facilitava a expansão comercial do tráfico negreiro mesmo após sua proibição, pois há uma continuação de ondas migratórias forçadas de africanos em direção ao Brasil”.

As relações comerciais do passado colonial requerem aprofundamento em pesquisas que podem revelar situações até então desconhecidas. Essa busca suscitará, certamente, novas reflexões sobre os papéis desempenhados por cada um desses entes na História – que forçosamente se tornou comum – entre Portugal e suas ex-colônias.

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