A arte de entreter versus despertador das massas – Fernando Guelengue

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Um desenho artistico produzido por Mestre Kapela. Foto: DR
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Os músicos David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes são algumas das várias referências que a música de intervenção social conheceu, seguidos de bandas musicais que animavam as tropas nas matas.

Quando ouvimos falar de arte, para os mais esclarecidos, remetemo-nos ao filósofo Platão que a definiu como a «capacidade de fazer coisas de modo inteligente através de um aprendizado». Este conceito, discutível para todos os demais entendidos na matéria, pode ser desconstruído na lógica de ser menos perceptível do ponto de vista da sua capacidade intelectual, por ser também percebida como a manifestação da própria natureza humana.

Através do pensamento, vários seres humanos, esclarecidos ou não, manifestam a beleza e a natureza da sua dimensão artística que é percebida pelos demais pela reacção dos órgãos de sentido, nomeadamente a visão, a audição, o olfato, o paladar e até mesmo o tacto, como o tocar de um quadro de Fernando Alvim ou do britânico Sacha Jafri, que ocupou o salão de um hotel de luxo no Dubai para produzir aquela que está a ser considerada a maior pintura criada em tela.

Desde que nos tornámos gente, tomámos conhecimento de que ao longo da história da humanidade, vários indivíduos que contribuíram para a criação artística universal foram lembrados por causa das duas dimensões que a arte pode apresentar, na minha visão: com carácter de entretenimento e como mecanismo de despertar o senso crítico das massas.

Antes de mais nada, todos os artistas são verdadeiros e potenciais mensageiros de si próprio e dos outros, através da expressão da sua arte falada, escrita ou representada. Mas aqueles que criam as suas próprias mensagens sobre um mundo utópico acabam por estar mais ligados à missão de entreter e puxar pela imaginação daqueles que têm alguma sofisticação da mesa, ou seja, deixam de se preocupar com o básico. Isto acontece mais em sociedades que estão a viver um alto nível de desenvolvimento humano devido ao investimento feito ao próprio homem. Como exemplo, podemos citar países como Finlândia, Dinamarca, Suíça, Suécia, Países Baixos, Alemanha, Noruega, Nova Zelândia, Áustria e o Canadá, que estão mais preocupados em fechar as prisões para abrir universidades com o curso superior de FELICIDADE, locais onde há elevado índice de bem-estar social!

No segundo quesito, o das sociedades subdesenvolvidas como é o caso no nosso país, Angola, a ausência de pão na mesa de milhares de famílias, a má governação, o desvio dos recursos que deveriam ser alocados ao bem-estar social das comunidades e tantos outros males da nação, criam a certeza de que a arte não tem muitas opções senão a de ajudar a despertar o senso crítico das populações. Mas o entretenimento pode estar evidente aí para gerar um equilíbrio entre a força das mensagens críticas das artes e dos memes sociais, ou como dizia o músico angolano Beto de Almeida: «vou sorrir para não chorar».

Apesar da época em que estávamos a viver, esta estrela que muito cedo apagou, Beto de Almeida, sempre manifestou nas suas canções uma mensagem de lições sobre o quotidiano dos angolanos numa melodia que invadia até as matas comandadas pela UNITA, do então mítico comandante Jonas Savimbi. Mas o Sebem não deixou de criar uma dimensão mais leve da intervenção ao cantar que «todos queremos a felicidade», pois a música no estilo dos musseques chamava a atenção de todos que o sofrimento era demais. O Dog Murras sozinho dá livro, daí que o escritor e empreendedor Ribeiro Tenguna tenha feito um brilhante trabalho sobre o estilo Kuduro, mencionando o trabalho deste interventor da linguagem dos musseques que reside actualmente no Brasil!

Sem perder o fio da abordagem podemos recordar que artistas usaram a música, o grafite e a dança para expressar o sentimento de revolta contra os opressores durante a época colonial em várias partes do mundo. Em Angola não foi diferente. O músico e compositor Elias Dya Kimuezo, considerado o Rei da Música Angolana, usava a língua kimbundu para transmitir mensagens de revolta por intermédio da música, num claro comando do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), como revela a sua biografia «Elias Dya Kimuezo – A Voz e o Percurso de um Povo», da jornalista e escritora Marta Santos. O músico David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes são algumas das várias referências que a música de intervenção social conheceu, seguidos de bandas musicais que animavam as tropas nas matas.

Embora haja uma forte inclinação de artistas ligados aos partidos políticos, há muitos casos que levaram os artistas contemporâneos a enveredar para este modelo de acção e exteriorização da arte reivindicativa, como é o caso de despertar as almas cativas pela manutenção do poder para criar sinergias na busca da verdadeira libertação.

Resiliência&Fé.

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