O Batuque de Umbigada – Carlos Carvalho Cavalheiro

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Batuque de Umbigada realizado na Piracicaba, em 2015. Foto: Carlos Carvalho Cavalheiro.
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“Um pedaço da África em Piracicaba”. É assim que o escritor e pesquisador Vanderlei Benedito Bastos definiu o batuque de umbigada em seu livro “Dandara”, lançado em 2012.

Vanderlei Bastos é um dos entusiastas e praticantes do batuque de umbigada, ao lado de outros como Vanderlei Gilberto Barros e Antônio Filogênio de Paulo Júnior, na cidade de Piracicaba, região do Médio Tietê, no Estado de São Paulo, Brasil. É por isso que, parafraseando o autor acima, podemos dizer que o batuque de umbigada é um pedaço da África no Brasil.

Com o nome de batuque existem diversas danças espalhadas por todos os Estados do Brasil. Em geral se traduzem por uma dança de roda em que a percussão, especialmente realizada por instrumentos que se assemelham àqueles trazidos no passado pelos africanos escravizados, é o alicerce que sustêm toda a estrutura musical e coreográfica. Na região do Médio Tietê o batuque recebe o nome de “Batuque de Umbigada” ou “Tambu”. O primeiro nome se dá pelo fato de que na coreografia dessa dança de roda há o momento em que dois dançadores encostam seus ventres (ou umbigos) reverenciando, segundo consta, a primeira boca, pois é pelo cordão umbilical que nos chega o alimento enquanto vivemos dentro da placenta.

A umbigada é conhecida, segundo alguns pesquisadores, em partes da África. Kaadi Wa Mukuna, em seu livro “Contribuição bantu na música popular brasileira”, afirma que “Segundo Alfred de Sarmento, que observou a dança de umbigada na região de Luanda, ‘o batuque consiste… num círculo formado pelos dançadores, indo para o meio um preto ou uma preta que, depois de executar vários passos, vai dar uma umbigada a que chamam semba…’” (pág. 70 – 71).

Assim, alguns acreditam que semba seja o nome original de um ritmo muito cultuado no Brasil, o samba. De fato, muitas danças de origem notoriamente africana incluíram a umbigada em sua coreografia. Entre elas, algumas que os seus executores chamam de samba. Edison Carneiro, outro eminente pesquisador de cultura popular e cultura afro-brasileira, realizou um estudo intitulado “Samba de Umbigada”, relacionando dezenas de variantes de danças e músicas que mantiveram a umbigada: Tambor de Crioula, Lundu, Milindo, Côco, Côco Mineiro-pau, Samba de roda, Samba Lenço, Jongo…

O folclorista Américo Pellegrini Filho, em seu livro “Folclore Paulista”, informa que no Batuque paulista é utilizado dois tambores: o tambu (maior, feito de um tronco cortado de árvore) e um menor chamado quinjengue. Ainda, segundo Pellegrini Filho, utilizam-se das matracas que são “dois pedaços de pau percutidos no corpo do tambu” (pág. 165).

Dentre as cidades da região do Médio Tietê e adjacências, encontramos referências ao batuque em Capivari, Tietê, Itu, Piracicaba, Sorocaba, Rio Claro, Porto Feliz e em toda localidade em que a escravidão deixou a sua tétrica marca. Atualmente, apenas algumas cidades se esforçam por manter essa tradição viva, como é o caso de Capivari, Tietê e Piracicaba. Outras, como Sorocaba e Porto Feliz, a tradição já se extinguiu.

Porém, não faz muito tempo que se verificaram alguns vestígios dessa prática nessas últimas localidades. Há fotografias da realização de uma roda de Batuque de Umbigada em Sorocaba na década de 1970. Na cidade de Porto Feliz, no ano de 1953, um jornal publicou que durante a festa de São Benedito, evento religioso tradicional na região, haveria a execução de um batuque na antiga rua da Laje. Curiosamente, um ano antes, a prefeitura publicou o “Código Municipal” (Lei 315/52) que dentre tantas outras coisas, proibia a promoção de “batuques, congados e outros divertimentos congêneres”.

A proibição de batuques foi comum no século XIX, especialmente durante a vigência da escravidão, pois era uma forma de ajuntamento e que propiciava, também, exercícios corporais de caráter marcial, como a capoeira e a pernada. De fato, até hoje, no Tambor de Crioula no Estado do Maranhão, há um momento em que a roda de umbigada se converte numa disputa de destreza marcial de homens chamada de “punga ou pungada de homens”. É muito semelhante a uma capoeira simplificada.

Algo semelhante era observado outrora em rodas de samba do Rio de Janeiro chamadas de samba duro ou samba de plantar, no qual um contendor ficava em pé no centro da roda tentando se livrar de golpes de um oponente. Em São Paulo, especialmente na capital, exercitava-se a “tiririca” ou “pernada” em que ao som do samba os homens se enfrentavam com rasteiras e jogo de corpo no centro da roda.

Em Sorocaba essa brincadeira era conhecida como pernada. Uma música executada durante a pernada de Sorocaba é bastante esclarecedora: “Abre a roda, meninada / que o samba virou batucada / Abre a roda, meninada / que o samba virou pernada”.
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Carlos Carvalho Cavalheiro é Mestre em Educação (UFSCar), Licenciado em História e Pedagogia Bacharel em Teologia, Especialista em Metodologia do Ensino de História e em Gestão Ambiental e Historiador brasileiro registrado no ME sob nº 317/SP.

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