Coreógrafa americana Anna Halprin morre aos 100 anos

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Anna Halprin foi uma coreógrafa e dançarina americana que ajudou a redefinir a dança na América do pós-guerra. Foto: DR

A coreógrafa e bailarina norte-americana Anna Halprin, criadora de “Parades & Changes”, que a Culturgest e Serralves revisitaram em 2009, morreu aos 100 anos, na segunda-feira, 24, em Kentfield, Califórnia, nos Estados Unidos, anunciou esta quinta-feira, 27, a família.

Pioneira da dança contemporânea, determinada na abordagem de questões sociais, Anna Halprin trabalhou com compositores como John Cage, teve por alunas Trisha Brown e Meredith Monk, concebeu coreografias como “Ceremony of Us” (“Cerimónia de nós mesmos”, em tradução livre), congregando bailarinos afro-americanos e brancos, na viragem da década de 1950 para a seguinte, numa altura em que a luta pelos direitos civis atingia o auge nos Estados Unidos da América e, em estados do sul, ainda persistiam políticas segregacionistas.

“A dança foi um abrir de olhos [para mim] — levá-la onde as pessoas estão, em vez de esperar que viessem ter comigo“, disse Anna Halprin ao The New York Times, em 2014, conforme cita o Observador.

Nascida Anna Schuman em Winnetka, Illinois, aos 13 de Julho de 1920, Anna Halprin iniciou os estudos de dança, dentro dos padrões clássicos, na infância. Concluiu-os na Universidade de Wisconsin, onde se formou no início da década de 1940, e onde conheceu o arquiteto paisagista Lawrence Halprin (1916-2009), com quem viria a casar-se e a construir 70 anos de vida em comum.

Após a II Guerra Mundial, o casal fixou-se em São Francisco. Em 1955, a artista fundou a Francisco Dancers’ Workshop, companhia e escola, onde trabalhou com compositores como Luciano Berio, John Cage, Terry Riley e La Monte Young, com escritores como Richard Brautigan, James Broughton e Michael McClure, e onde teve por alunos figuras maiores da dança e da música nos Estados Unidos, como Trisha Brown, Meredith Monk, Simone Forti e Yvonne Rainer. Para a escola, Lawrence Halprin concebeu um ‘deck’ que se tornou num dos mais célebres laboratórios da dança contemporânea, nos anos de 1950.

Entre as mais conhecidas coreografias de Anna Halprin encontra-se “Parades & Changes”, de 1965, na qual os bailarinos dançam até à nudez, e que a coreógrafa Anne Collod revisitou em “Parades & Changes, Replays”, apresentada em Portugal, em 2009, nos auditórios da Culturgest, em Lisboa, e de Serralves, no Porto.

Estreada no Hunter College de Nova Iorque, a obra foi de imediato proibida, emitidos mandados de captura para a coreógrafa, o compositor Morton Subotnick e para os bailarinos.

“Parades & Changes”, considerada pela crítica e a história da dança “uma peça-chave, fundamental para a compreensão do trabalho de pesquisa levado a cabo por Halprin desde os anos de 1950”, esteve afastada dos palcos norte-americanos durante 20 anos, embora tenha sido escolhida como espetáculo de estreia, na inauguração do Museu de Arte de Berkeley, na Califórnia, em 1970.

A obra “resulta de um longo processo de experimentação baseado na improvisação estruturada, da colaboração entre bailarinos e na pesquisa sobre o processo, o lugar, a acção e o autor“, explicou Anne Collard, que trabalhou de perto com a coreógrafa norte-americana, quando da apresentação em Portugal.

“O seu trabalho [de Anna Halprin] é uma parte importante da História da Dança“, disse o coreógrafo Merce Cunningham, o primeiro dos contemporâneos, com Martha Graham, nos Estados Unidos.

O percurso de Anna Halprin centra-se na importância de envolvimento da comunidade, nos seus processos, na renovação da dança e na noção de que esta é “uma actividade profundamente democrática”. É o caso de “Planetary Dance” (“Dança Planetária”) uma obra aberta a todos, que se destina a ser interpretada por qualquer pessoa que decida participar, mesmo sem formação como bailarino, mesmo que não saiba dançar.

DANÇA PARA  FISIOTERAPIA E RECUPERAÇÃO

Depois de lhe ter sido diagnosticada um cancro, no início dos anos 1970, Halprin começou a utilizar a dança como instrumento de fisioterapia e recuperação, procurando responder a necessidades físicas. Desenvolveu programas específicos para pacientes de cancro e de sida.

Com a filha Daria, fundou o Instituto Tamalpa, em 1978, destinado à formação e investigação, nesta área. Com o marido, escreveu “Intensive Care: Reflections on Death and Dying” (“Cuidados Intensivos: Reflexões sobre a Morte e o Morrer”), em 2000.

A obra de Anna Halprin soma mais de 150 coreografias. Escreveu três livros de carácter autobiográfico, o mais recente dos quais “Making Dances That Matter” (“Fazer a Dança que Interessa”), de 2019, no qual procura desenvolver recursos para a “criatividade comunitária”.

Parte do desafio que enfrentei no meu trabalho foi levar a prática de dança a um lugar onde possa servir múltiplas necessidades sociais, comunitárias e de sobrevivência”, escreveu Halprin, nesta derradeira obra.

O seu objectivo, confessou, foi sempre “a criação de danças importantes para as pessoas, na sua vida real, como veículo de mudança social e de resistência da comunidade”.

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