“O Brasil não nos contou a verdadeira história do Brasil”, revela pianista Amaro Freitas

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29/11/18 - Amaro Dias. Fotos para entrevista ping-pongue com Amaro Dias. Local: Armazém de refoema de Piano, Vila Popular, Olida-PE. Foto: Eric Gomes
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Natural de Nova Descoberta, periferia da Zona Norte do Recife, o pianista Amaro Freitas passeava numa feira africana no Harlem, em Nova York, quando se deparou com o símbolo de um pássaro mítico com cabeça voltada para trás, estampado numa bata que o músico comprou de um vendedor senegalês.

Emannuel Bento

Mais tarde, o artista descobriu que se tratava de uma sankofa. “Acreditei que aquilo era um sinal e fui pesquisar mais. Ela integra um conjunto de símbolos dos povos acãs, da África Ocidental, que nos ensina que não é tabu olhar para trás, conhecer a nossa ancestralidade e nos entendermos melhor nesse tempo. A Sankofa nos diz que o futuro é ancestral. Esse posicionamento é fundamental para as futuras gerações”, explica Amaro, ao Viver.

Essa iconografia deu nome ao seu terceiro álbum de estúdio, Sankofa, lançado com patrocínio do edital Natura Musical na semana passada. Não é por acaso que o insight surgiu durante uma viagem internacional. Após os discos Sangue negro (2016) e Rassif (2018), que arrancaram elogios da revista Downbeat e outras renomadas publicações e o levaram para festivais e grandes clubes em todo o mundo, o artista entrou em contacto com novas culturas, públicos e experiências. Se Rassif explorava características de ritmos populares do Nordeste em linguagem jazzística, Sankofa agora se estende a uma ancestralidade cada vez mais global.

Com Jean Elton (baixo) e Hugo Medeiros (bateria), que formam o Amaro Freitas Trio desde o início, Sankofa dá continuidade às pesquisas do pianista por um jazz contemporâneo brasileiro, mas que dialoga com o que está ocorrendo pelo mundo. “Esse disco fala sobre quebrar barreiras. Estamos em diálogo com a diáspora africana, que contagia outras pessoas como Nubya Garcia (Inglaterra), Macaia (Portugal), Christian Scott (EUA)”, explica.

Freitas também tenta criar uma trilha instrumental para contar histórias esquecidas, reviver filosofias antigas e ressaltar figuras negras inspiradoras. “O Brasil não nos contou a verdadeira história do Brasil”, sintetiza. A faixa Baquaqua, por exemplo, foi inspirada na histórica do príncipe africano Mahommah Gardo Baquaqua, que foi trazido para Pernambuco como escravo, mas fugiu para Nova York em 1847, onde aprendeu a ler e escrever, chegando a publicar sua autobiografia – um raro documento sobre a escravidão com cosmovisão de um africano.

Ao ouvir a faixa pensando nessa história, é como se o ritmo nos fizesse acompanhar e sentir essa jornada desafiadora. “Baquaqua foi padeiro em Olinda e tinha um senhor que o tratava muito mal. O meu pai sustentou a minha família como padeiro, então essa história me toca muito”, diz Amaro. “As histórias do álbum mostram que os nossos ventos vêm de muitos tempos, mas as filosofias da África nos ensinam um outro caminho. O saber eurocêntrico nos diz: ‘penso, logo existo’, mas o africanismo nos fala: sinto, logo existo’. Acho que essa capacidade de sentir nos leva para algum lugar bem mais humano.”

De fato, Sankofa é um álbum que desperta sensações. A relaxante e delicada Vila Bela leva o nome de uma área entre Mato Grosso e Bolívia, onde Tereza de Benguela, rainha quilombola do século 18, liderou a comunidade de resistência à escravidão por duas décadas. “Em experiências fora do Brasil, toquei em outros tipos de pianos, encontrei novas possibilidades e ferramentas. Quando voltei para Pernambuco, percebi que preciso tocar ainda mais suave. Vila Bela tem disso, pois comecei a compor em notas lentas, queria agradecer a Teresa, como se fosse um abraço nela”.

Amaro Freitas. Foto: João Vicente.

A alegre Ayeye é uma celebração iorubá que ganha piano e grooves que remetem a D’Angelo, Alicia Keys ou Bill Evans. Em Batucada, Amaro trabalha com o samba de partido alto em outra perspectiva. Nascimento é outro destaque, pois traduz a experiência de Freitas com Milton Nascimento – ele assina o piano em duas faixas do EP Existe amor, gravado com Milton e Criolo. “Quando falamos de Bituca (como Milton é carinhosamente chamado), falamos de memória, autoestima, representatividade. No meio de uma loucura que é a história do Brasil, temos um ser de luz, que sempre esteve ali aparecendo na mídia, que nos dá esperança de realizar a nossa missão aqui na Terra. Trabalhar com ele foi uma das melhores experiências da minha vida”, conta o pianista.

Amaro Freitas também segue com uma mentalidade de que a sua música instrumental não pode ficar enclausurada em um nicho que tem um certo histórico elitista ou exclusivista. “Sankofa me trouxe esse amadurecimento. Espero que as faixas toquem as pessoas em momentos diferentes”, finaliza.

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