Televisão portuguesa exibe documentário sobre vida e obra de Mia Couto ~

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HAY-ON-WYE, WALES - MAY 25: Mia Couto, Mozambican writer, during the 2019 Hay Festival on May 25, 2019 in Hay-on-Wye, Wales. (Photo by David Levenson/Getty Images)

Intitulado “Sou Autor do Meu Nome – Mia Couto”, o documentário da cineasta sueca Solveig Nordlund foi exibido pela Rádio Televisão Portuguesa 2 (RTP2), nesta segunda-feira, 5, pelas 22h55.

Considerado um “escritor da terra”, Mia Couto assume uma posição privilegiada na cultura africana. É detentor de uma vasta obra, distinguida com vários prémios literários, e está ligado às Nações Unidas como Conselheiro para Assuntos Africanos.

No documentário é possível conhecer a vida e o percurso do escritor, narrado na primeira pessoa, sempre acompanhado por excertos dos seus livros, poemas, contos encantados, representações teatrais, por discursos como Conselheiro das Nações Unidas ou por uma simples leitura numa escola rodeado de crianças.

PERFIL

Mia Couto é uma referência vida da literatura lusófona. De origem moçambicana, traz as suas origens para grande parte das obras que desenvolve, colmatando num imaginário rendilhado e maravilhado.

De acordo com Lucas Brandão, no seu artigo de 2019, o escritor é sempre maravilhado com as suas terras, os seus rios, os seus mares, e os seus lugares de predileção. Todo o traçado evolutivo da personalidade e da criatividade do autor radica nesse expoente literário, que desemboca em sensações com vista para o Índico.

Mesmo que Moçambique não seja o mundo, não é longe a proporção que assume nos contos e recontos de Mia Couto, viajando na proa de uma costa onde os sonhos se medem e se intervalam com as palavras, as ideias, as narrativas, as viagens.

António Emílio Leite Couto nasceu na Beira, principal cidade do estado moçambicano de Sofala, no dia 5 de Julho de 1955, no seio de uma família de emigrantes lusos. O pseudónimo “Mia” derivaria precisamente da sua infância, durante a qual tinha uma adoração por gatos, e que ajudou o seu irmão a encontrar uma referência para o futuro escritor, porque, à data, não conseguia pronunciar o seu nome. Antes de completar o seu ensino preparatório, herdou a veia lírica do seu pai, Fernando Couto, e viu poemas seus publicados no período local “Notícias da Beira”, e essa motivação da escrita, aliada à prossecução dos seus estudos, conduziram-no para Maputo, então designada Lourenço Marques, capital do seu país.

Foi aqui que iniciou a sua licenciatura em Medicina, curso que abandonou a meio para exercer a profissão de jornalista no pós-25 de Abril. Os seus estudos decorreram numa fase em que a pressão ditatorial se fazia sentir nesta colónia portuguesa, o que motivou que o futuro escritor se juntasse à Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO.

No encalço do seu trabalho, acabou nomeado diretor da Agência de Informação de Moçambique, estabelecendo contactos privilegiados nas diversas províncias, numa fase de enorme conturbação política e social.

O seu ofício jornalístico prosseguiu nas funções de director da revista “Tempo”, e no jornal “Notícias”. Foi por esta altura, inícios dos anos 80, que publicou o seu primeiro livro de poesia, de título “Raiz de Orvalho” (1983). A obra assume um cunho intervencionista, que se opõe à propaganda marxista de então, para além de discutir questões identitárias e tradicionais da cultura africana e moçambicana, rondando a terra, as tradições e a língua.

Na poesia, só voltaria em 2011, apesar de várias antologias, com o trabalho “Tradutor de Chuvas”. Uma destas foi realizada pelo também poeta e biólogo moçambicano Orlando Mendes, num trabalho que derivou de uma palestra dada por este, e que medita sobre a literatura do país.  Seria, assim, a prosa que Mia Couto iria privilegiar desde então, principalmente após abandonar o jornalismo, em 1985.

O seu percurso na literatura foi-se avolumando neste século, escrevendo à volta de uma dezena de obras, entre elas “Vozes Anoitecidas” (coleção de contos de 1986), “Cronicando” (livro de crónicas datado de 1988), “Contos do Nascer da Terra” (1997, onde um pai procura oferecer a lua à sua filha), “Vinte e Zinco” (1999, em que as entranhas terrestres sentem a calamidade da Guerra Colonial), “O Último Voo do Flamingo” (2000, onde os capacetes azuis responsáveis por manter a paz no pós-guerra moçambicano começam a, inexplicavelmente, explodir), “O Fio das Missangas” (2003, um conjunto de contos de um “fabricador de ilusões”), e “Jesusalém” (2009, contando a vida familiar e em crescendo de uma criança local, que desemboca nos dilemas e conturbações do seu pai).

De qualquer forma, e indiferentemente do género, as idiossincrasias de Mia são marcantes e denotáveis em qualquer texto da sua autoria, revelando-se nas metáforas requintadas e nos termos engendrados pelo seu expoente criativo. No âmago, está o seu declarado prazer por “desarrumar a língua”.

Este gosto estendeu-se aos livros para crianças, tendo, no seu repertório, “A Chuva Pasmada” (2004, numa realidade na qual a água começa a escassear dos céus e dos rios), e “O Outro Pé da Sereia” (2006, em que as várias personagens cruzam locais, tempos, e as próprias vidas).

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