“O jazz expõe as sequelas da escravatura e racismo”, Ali Moussa Iye

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Ali Moussa Iye, Chefe da Secção de História e da Memória para o Diálogo da Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura – UNESCO. Foto: DR
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O Dia Internacional do Jazz está a ser celebrado por mais de 190 países dos cincos continentes, mas já passam sete anos desde que foi lançado pela UNESCO. Ali Moussa Iye faz uma incursão à memória deste estilo que é tido como “o espaço da liberdade”.

Fernando Guelengue

Segundo o Chefe da Secção de História e da Memória para o Diálogo da Organização das Nações Unidas para Educação e Cultura – UNESCO, Ali Moussa Iye, que falava aos microfones de Dulce Araújo, da Rádio Vaticana, há uma ligação directa entre este dia e os afrodescendentes. “É que o jazz é a contribuição cultural e artística, mais conhecida e mais celebrada, das pessoas de ascendência africana. Foi, portanto, uma contribuição extraordinária que está na base de um conjunto de danças e músicas. E é toda essa memória que, efectivamente, a música traz em si”, frisou o académico, acrescentando que apesar de ser desconhecida, a ligação tem a ver com “as sequelas herdadas da história dolorosa do tráfico negreiro e a escravatura, seguidos da segregação e do racismo”.

O responsável referiu ainda que um dos paradoxos do estilo visto como força da paz, do diálogo e de compreensão entre povos, é o facto da mesma música, que foi criada e praticada por pessoas de origem africana, que viviam em condições de segregação, racismo e discriminação, ter servido para resistir a esse sistema, afirmando a identidade e as origens do passado.

Ao longo dos tempos, explica a mesma fonte, passou de uma música inicialmente rejeitada e denigrida, para reconhecida, celebrada e colocada no classicismo. “E que hoje, sim, é ouvida por uma certa elite.  Isto é, de certo modo um paradoxo, mas é claro que o jazz nasceu, digamos não nos campos de algodão, mas depois das abolição e, de certo modo, nas cidades, lá onde se agrupavam os afroamericanos que deixavam as plantações, para se recrearem. E é dessa urbanidade que nasceu o Jazz”, reforçou.

Ainda de acordo com este especialista em ciências políticas que se encontra na UNESCO desde 1997, o Jazz nasceu na famosa “Congo Square” (Praça do Congo) em New Orleans, em meados do século XIX. “Era um lugar onde os escravos se encontravam  porque lhes tinha sido dada, finalmente, a possibilidade de não trabalhar aos domingos – e foi a Igreja na Luisiana que pediu um dia de repouso, porque antes trabalhavam todos os dias e todo o dia – então reuniam nessa Praça (a que deram o nome de Congo Square) para falarem a sua língua, recordarem-se dos ritmos da sua cultura de origem, e foi desse entrelaço entre pessoas de descendência africana, originárias de diversas regiões da África, com diferentes tradições musicais e rítmicas que nasceu o rudimento daquilo que viria a ser o Jazz”, salientou.

DIFUSÃO E INSTRUMENTOS

Questionado se o processo de difusão pelo mundo é característico de todas as músicas nascidas no contexto da Diáspora africana ou o Jazz teve algo de especial que determinou a sua difusão pelo mundo fora como uma música de elite, Ali Moussa Iye fez saber que pode-se dizer que  todas as músicas afroamericanas e afro-caraíbas nasceram da mesma forma: eram músicas de resistência contra a desumanização e contra a opressão.

No Brasil, explica a título de exemplo, tomam formas diferentes e nas Caraíbas também, tornando-se da elite por ser uma música que desde o início deu uma importância fundamental à liberdade, à liberdade de improvisar e de se emancipar de todos os empecilhos das normas dominantes. “Acho que é essa obsessão pela liberdade que fez com que o Jazz se tornasse numa música que correspondia às aspirações das pessoas, dos indivíduos, das comunidades no século XX e, é por isso, que se tornou numa música da modernidade, porque justamente insuflava essa liberdade e esse desejo de se exprimir de forma individual e de improvisar”, declarou o também responsável pelo projecto “A Rota do Escravo”, sustentando ser esta a razão pela qual o jazz se tornou numa música universal e continua a inspirar músicos de todos os países e povos.

Em relação aos instrumentos, o especialista refere que o saxofone não era normalmente destinado ao Jazz, mas se apoderou de alguns instrumentos da música clássica e de outros instrumentos novos que tinham sido criados, sempre com essa liberdade de improvisação. “Eles re-transformam, re-configuram esses instrumentos. Acho, portanto, que é isso que faz com que o Jazz tenha tido esse impacto”, frisou Ali Moussa Iye.

Martin Luther King, por exemplo, conta ainda a nossa fonte, num discurso em 1964, num Festival de Jazz, em Berlim, sublinhou este aspecto. “Ele disse que quando a vida não apresenta uma ordem, nem sentido, o músico do Jazz cria uma ordem e um sentido a partir dos sons da terra que passam pelo instrumento e pela voz”, lembra.

Continua dizendo que “e ele disse que todo a força dos Movimentos de Liberdade Cívicos nos Estados Unidos vinha justamente da música do Jazz porque reforçava  as coordenadas desse Movimento nos ritmos pulsantes quando a coragem lhes faltava; com as suas harmonias, acalmava também as suas tormentas quando o espírito baixava. Como vê, regularmente, conforme as gerações, as pessoas sempre se reconheceram no Jazz e utilizaram essa liberdade que o Jazz insufla para as suas próprias reivindicações. E é por isso, que é uma música em contínua renovação e é por isso que agrada a todas as gerações”.

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